A Lacuna - Ella
Em algum momento, a vida simplesmente para. Eu não sei em que segundo exato a engrenagem trava, só sei que trava. E de repente eu estou ali, parada, perfeitamente imóvel no meio do caos que antes me engolia inteira. O mundo desacelera como se estivesse me dando uma última chance de assistir cada frame antes que o filme volte a rodar.
Julho chegou. E com ele, essa calmaria que não confio.
Corpo, mente e espírito respirando no mesmo compasso, pela primeira vez em muito tempo. Deveria ser paz. Deveria. Então por que meu peito ainda dói como se estivesse com fome de alguma coisa que eu nem sei nomear?
Não é Deus. Não é propósito. É mais baixo que isso, mais animal. É um vazio com o formato exato de um corpo que ainda não chegou, uma cavidade escavada sob medida, esperando ser preenchida, e minha mente não para de sussurrar as mesmas três perguntas, feito um mantra cruel: quando. por quem. por quê.
São nesses dias cinzentos que eu me pego negociando comigo mesma. Será que eu vou reconhecer o amor quando ele finalmente bater? Ou será que as borboletas, a eletricidade na pele, a queda livre no estômago, será que tudo isso não passa de mito que eu inventei pra sobreviver à espera? E se eu nunca, nunca, tiver sabido de verdade o que é esse sentimento lindo e assustador?
Tem tantos caminhos na minha frente. Tantas estradas que eu poderia simplesmente pegar agora, hoje, sem pensar duas vezes. Mas nenhuma delas parece valer o risco da queda.
E há uma dignidade estranha nisso, entender, com a clareza que só a dor madura traz, que existem coisas no universo que a gente não pode caçar. Elas têm que nos encontrar. O amor de verdade não se deixa perseguir; ele escolhe a própria hora, e é cruel o suficiente pra não avisar quando. Por isso eu fico. Parada. Esperando, com essa paciência que dói mais do que qualquer pressa.
Mas até quando eu aguento? E a que custo?
Esse espaço vazio continua aqui, gritando baixinho, e a ausência dele bagunça toda a mobília da minha alma, cada coisa fora do lugar, esperando alguém que saiba exatamente onde encaixar cada peça de volta.
Só me resta torcer.
Torcer para que esse canto vazio seja ocupado logo, por alguém que chegue como a calmaria depois da tempestade.
Alguém exatamente como Ele.
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