Prólogo - Isadora Arrais

Quinze anos atrás.


O vestido de debutante ocupava quase toda a extensão da colcha.


Eu ficava olhando para ele às vezes, aquele oceano de tule rosa-bebê que minha mãe havia mandado engomar três vezes porque o tecido “precisava cair com leveza”, como se o tecido soubesse o que era leveza e eu não. Faltavam quarenta e oito horas. Eu tinha decorado isso como se fosse uma contagem regressiva para algo que mudaria o curso da minha vida e era, só que não da forma que eu esperava.


No espelho oval do meu quarto, testei pela décima vez o ângulo exato em que a tiara de strass ficava melhor. Não muito à frente, porque escorregava. Não muito atrás, porque desaparecia no cabelo. Tinha que ser no topo, levemente inclinada para a direita, e eu precisava andar sem mexer a cabeça ou tudo desmoronava. Minha mãe achava isso engraçado. Meu pai tinha uma teoria.


— A questão não é segurar a tiara, Dora — ele disse na noite anterior, com aquela voz pausada que ele usava quando estava com sono mas fingia que não estava. — A questão é andar como se você não precisasse segurar nada.


Eu tinha quinze anos e achei que ele estava sendo filosófico. Só mais tarde entendi que ele estava me ensinando a dissimular.


A tarde de janeiro em Botafogo chegava com aquele peso úmido que precede a tempestade o ar parado, o céu cor de zinco oxidado, o silêncio dos pássaros que sabem quando o tempo vai virar. Lá embaixo, no quintal de trás, as folhas grandes da mangueira balançavam sem vento, apenas pelo calor acumulado nas pedras do jardim. O ar-condicionado do meu quarto criava uma redoma de frescor que cheirava a cera de assoalho e ao café que minha mãe passava toda tarde às cinco horas, religiosamente, como se a casa precisasse daquele rito para se manter em pé.


No canto do quarto, os sapatos de verniz preto exibiam um pequeno vinco no couro.


Eu sabia exatamente quando aquele vinco havia aparecido. Duas noites antes, meu pai tinha chegado do trabalho mais cedo do que o normal ele raramente chegava antes das oito, e naquele dia eram seis e meia, e ele trouxe um cheiro de chuva leve e tabaco inglês que eu ainda associo, até hoje, à ideia de surpresa boa. Ele tinha subido direto para o meu quarto sem tirar o casaco.


— Você sabe que a valsa começa com o cavalheiro conduzindo, né? — ele disse, parado na porta do meu quarto com as mãos nos bolsos e uma expressão de quem estava tentando não sorrir.


— Eu sei.


— E você sabe que o cavalheiro que for dançar com você na festa vai estar tão nervoso quanto você, né?


— Eu sei, Pai.


— Então você já sabe mais do que ele. — Ele entrou no quarto, afastou o vestido para o lado da cama com um cuidado excessivo que me fez rir, e me estendeu a mão com uma formalidade completamente teatral. — Posso ter essa dança?


Eu tinha pisado nos pés dele duas vezes nos primeiros trinta segundos. Ele tinha rido alto aquela risada que saía do peito e dobrava os ombros para a frente e dito que estava ótimo, que isso era sinal de caráter, que gente que nunca pisava nos pés de ninguém era gente que nunca se arriscava. A mão dele era grande e seca e segurava a minha com uma firmeza específica, não apertada demais, não frouxa demais, do jeito exato que eu precisava para saber onde estava o centro de equilíbrio entre nós.


Naquela noite, ninguém vai nos roubar a cena, ele tinha sussurrado entre os compassos errados.


Eu não tinha entendido o “nos”. Achei que ele estava falando de mim.


A chuva começou às seis e vinte.


Primeiro as gotas grossas estalando contra as folhas da mangueira o barulho específico que eu conhecia de cor, que significava que eu tinha uns cinco minutos antes de o temporal desabar de verdade. Depois o ronco baixo do trovão lá na distância, sobre o Pão de Açúcar, ainda longe o suficiente para ser paisagem e não ameaça.


Eu estava ajustando a tiara pela décima primeira vez quando o ritmo da casa quebrou.


Não houve sirenes. Não houve o alarde espalhafatoso que eu associava às notícias da televisão. O que interrompeu o som da chuva foi um motor um ronco gutural, pesado, a diesel, o tipo de motor que eu conhecia porque era o mesmo dos carros do trabalho do meu pai, mas que nunca, sob nenhuma circunstância, estacionava na nossa rua sem aviso prévio.


O chiado dos pneus contra o asfalto molhado terminou com o estalo seco do freio de mão.


Fui até a janela.


Lá embaixo, uma unidade descaracterizada da Superintendência estava parada em frente ao nosso portão de ferro. O Delegado Mendes desceu primeiro. Eu o reconhecia dos almoços de domingo na nossa varanda um homem que ria alto e elogiava o cozido da minha mãe e que meu pai chamava pelo primeiro nome. Mas o homem que eu via agora pela janela não se movia como alguém que vinha para um almoço. Os ombros estavam caídos. A cabeça levemente inclinada para o chão. Os dois homens atrás dele mantinham as mãos próximas à cintura.


O metal da tiara gelou contra o meu couro cabeludo.


Desci a escada sem pensar. Meus pés descalços grudavam no verniz dos degraus, e era esse barulho o som da minha própria pele contra a madeira que eu mais me lembro do percurso. Não a chuva. Não as vozes. O barulho dos meus próprios pés num degrau atrás do outro enquanto alguma parte de mim que ainda não tinha nome me dizia para parar, para não chegar até o final, para não ver o que havia para ser visto.


Parei no meio da escada.


Depois recuei para o vão escuro sob a estrutura um nicho estreito onde ficavam casacos velhos e caixas de sapato e o cheiro permanente de naftalina que a minha mãe combatia todo verão e que voltava todo inverno como se tivesse direito de estar ali. Eu me espremia no espaço, puxando os joelhos contra o peito, sentindo o teto baixo pressionar o topo da minha cabeça.


Pelas frestas da treliça de madeira, conseguia ver o hall de entrada em tiras de luz e sombra.


Minha mãe estava de joelhos no tapete oriental.


Eu nunca tinha visto minha mãe de joelhos. Não dessa forma. Não com aquela postura o corpo dobrado para a frente como se tivesse levado um golpe físico no meio do peito, os dedos cravados no paletó de Mendes com uma força que branqueou os nós dos dedos. A boca dela estava aberta. Os olhos estavam abertos. Ela não chorava. Era pior do que choro era o rosto de alguém tentando processar uma informação que o cérebro recusa como impossível.


— A operação em São Gonçalo… — a voz de Mendes saiu fragmentada, sem a ressonância dos domingos. — Houve um vazamento na linha de comunicação. A equipe de extração caiu na emboscada da estrada. O Raul sabia a rota. Não sobrou ninguém, Cecília.


O som que minha mãe fez não foi um grito.


Foi uma expiração seca, violenta, o som de todo o ar sendo arrancado do peito de uma vez. E depois nada. O silêncio que se seguiu era o tipo de silêncio que não é ausência de som. É a ausência de tudo que havia antes do som.


Dentro do vão da escada, eu pressionei a mão contra a minha própria boca.


Não foi uma decisão. O braço subiu sozinho, os dedos se fecharam contra os lábios com uma força que eu sentia nos nós dos dedos, e eu entendi com aquela parte do cérebro que processa perigo antes que as palavras se formem que se eu fizesse qualquer barulho, se deixasse sair qualquer coisa, aquilo se tornaria real de um jeito do qual não havia volta.


Então fiquei quieta.


Fiquei quieta enquanto os passos dos homens de Mendes varriam o andar de cima com aquela cadência burocrática e implacável. Fiquei quieta enquanto a minha mãe começava a emitir um som que eu nunca tinha ouvido sair de um ser humano não era choro, era o barulho de algo estrutural quebrando por dentro, uma frequência que eu senti nas costelas antes de processar com os ouvidos. Fiquei quieta enquanto o cheiro de ferro e ozônio da chuva entrava pela porta aberta e substituía o café e a cera de assoalho.


Os meus joelhos estavam molhados.


Demorei um tempo para entender que era da minha própria urina. Que o meu corpo tinha decidido, por conta própria, que não havia mais razão para manter o controle sobre si mesmo.


Lá em cima, o tule rosa continuava estendido sobre a colcha, esperando.


O choro da minha mãe reverberava pelas paredes de pé-direito alto e entrava pelo meu esconderijo como água por uma fresta incontrolável, por todos os lados, sem nenhum lugar para onde não fosse. Eu queria sair. Queria ir até ela. Queria que alguém me dissesse que eu havia entendido errado, que a voz de Mendes tinha dito outra coisa, que havia alguma explicação que eu ainda não conhecia e que tornaria tudo isso diferente.


Não me movi.


Fiquei ali com o cheiro de naftalina e a madeira velha e o frio que havia substituído o calor do meu lar como se nunca tivesse existido outra temperatura. Fiquei ali com a palma da mão pressionada contra a boca e os joelhos contra o peito e o som da minha mãe se destruindo a três metros de distância.


E fiquei pensando numa coisa idiota. Vergonhosa. Indigna do momento.


Ele não vai me ver dançar.


Era tudo que conseguia. Um pensamento pequeno, de quinze anos, que não tinha nenhuma proporção com o que havia acabado de acontecer. Meu pai estava morto numa estrada em São Gonçalo e o único pensamento que a minha cabeça conseguia montar era aquele a cena da festa que não existiria mais, os passos errados da valsa, a mão grande e seca segurando a minha no centro de equilíbrio entre nós.


O nome que Mendes havia pronunciado permaneceu suspenso no ar do hall.


Raul.


Eu o absorvi no escuro. Guardei a textura da poeira nos meus dedos e o frio que havia entrado pelos meus calcanhares e o som estrutural do choro da minha mãe. Guardei o vinco no couro dos sapatos de verniz preto que eram a marca exata de onde os pés do meu pai haviam pisado.


A menina que aprenderia a dançar a valsa permaneceu trancada sob aquela escada por muito mais tempo do que qualquer adulto percebeu.


Quando finalmente saiu, não era mais a mesma menina.


Mas isso levaria anos para ficar claro para ela e para todos os outros.


Quinze anos depois. Rio de Janeiro.


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