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Prólogo - Isadora Arrais

Quinze anos atrás. O vestido de debutante ocupava quase toda a extensão da colcha. Eu ficava olhando para ele às vezes, aquele oceano de tule rosa-bebê que minha mãe havia mandado engomar três vezes porque o tecido “precisava cair com leveza”, como se o tecido soubesse o que era leveza e eu não. Faltavam quarenta e oito horas. Eu tinha decorado isso como se fosse uma contagem regressiva para algo que mudaria o curso da minha vida e era, só que não da forma que eu esperava. No espelho oval do meu quarto, testei pela décima vez o ângulo exato em que a tiara de strass ficava melhor. Não muito à frente, porque escorregava. Não muito atrás, porque desaparecia no cabelo. Tinha que ser no topo, levemente inclinada para a direita, e eu precisava andar sem mexer a cabeça ou tudo desmoronava. Minha mãe achava isso engraçado. Meu pai tinha uma teoria. — A questão não é segurar a tiara, Dora — ele disse na noite anterior, com aquela voz pausada que ele usava quando estava com sono mas fingia que n...

Carta nº 5: A Saída de Emergência por Augusto Castillo

Ludovica, Esta é a quinta vez que tento te alcançar. A quinta vez que tento vomitar as palavras que ficaram presas na minha garganta por meses, apodrecendo entre meus dentes. Mas antes de qualquer confissão, antes que eu derrube a última barreira, eu preciso saber: como você está? Espero que o turbilhão tenha dado lugar a uma trégua. Espero que sua mente tenha encontrado paz, mesmo que seja aquela paz silenciosa e oca que fica depois de uma guerra longa demais. Agora você sabe que eu caí por você no segundo em que nossos olhos se cruzaram. Mas o amor de verdade? O amor que deixa cicatrizes profundas? Esse aconteceu no cotidiano. Na forma como você dobrava as mangas da blusa, no som do seu sopro no café quente, no jeito que você falava dos seus pais como se estivesse pintando o próprio céu. Eu te amei quando você chorou sem plateia. Te amei quando sua risada soou como uma ferida finalmente fechando. Mas agora vem a parte que eu evitei. A parte que vai nos queimar. Houve um dia em que eu...

Carta nº 4 : A anatomia dos detalhes por Augusto Castillo

  Leia ouvindo : To Build a Home Vica, Na última carta, meus dedos tremiam tanto que não sei se o que molhou o papel foi suor ou as lágrimas que jurei que não deixaria cair. Para te explicar como chegamos ao fim, eu preciso voltar ao centro do furacão. E voltar, Vica, é como abrir uma caixa de munição antiga: ainda tem cheiro de pólvora, ainda tem peso, ainda pode explodir na minha cara. Dói. Mas você sempre mereceu a verdade nua, mesmo quando eu me escondia atrás de barricadas de silêncio. Depois daquele primeiro beijo, nos tornamos inseparáveis. Foi um pacto selado no escuro, algo que minha alma reconheceu antes que minha mente pudesse processar o perigo. Nossos horários eram um campo de batalha você cantando nas noites, eu trabalhando até os ossos durante o dia  mas a gente dava um jeito. As chamadas de vídeo viraram meu único oxigênio. Ver você rindo do outro lado da tela era a única coisa que me fazia sentir que eu ainda tinha uma casa para onde voltar. Minhas viagens de ...

Carta nº 3 : A teoria do acaso por Augusto Castillo

  Leia ouvindo : Je te laisserai des mots - Patrick Watson Vica, Ainda me falta a porcaria da coragem. Minhas mãos ainda tremem no papel, tropeçando em palavras que deveriam ser simples, mas que pesam como chumbo. Só que eu não posso mais me esconder atrás das pilhas de silêncio que ergui entre nós. Eu achei que elas me protegeriam, mas a única coisa que o silêncio fez foi me enterrar vivo, longe de você. Na última carta, eu confessei que me apaixonei no primeiro dia. Mas isso? Isso foi só o prelúdio da minha ruína. A verdade é que quando você sorriu naquele bar, mexendo no cabelo como se o mundo não estivesse prestes a implodir, algo dentro de mim quebrou. Foi como se o universo, esse velho sádico e teimoso, finalmente tivesse apontado o dedo para mim e sentenciado: É ela. Aguente as consequências. O problema dos começos é que a gente nunca antecipa o tamanho da queda. E Deus, como eu caí. Tudo se resumiu àquele brinde. Um gesto pequeno, quase insignificante para qualquer um, mas ...

Carta nº 2 : A anatomia de um covarde por Augusto Castillo

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Ludovica Russo e Augusto Castillo Leia ouvindo : Cherry Wine - Hozier   Ludovica, Não sei por onde começar, então vou deixar o peso cair de uma vez: eu te devo explicações. Devo por cada silêncio que rugiu entre nós como um motor com defeito. Por cada confusão que plantei porque não tive a porcaria da coragem de colher as consequências. Eu deixei tudo subentendido enquanto você sangrava por clareza. Talvez agora, com a distância apertando meu pescoço e a saudade montando guarda no meu peito, eu consiga cuspir a verdade. Isso não é uma estratégia de reconquista. Não é uma desculpa com verniz. É a verdade nua, possivelmente letal, e definitivamente atrasada. Preciso que você saiba o que realmente aconteceu. Por que eu me tornei uma tumba de segredos. Por que eu fiz parecer que o problema era você... quando o erro sistêmico sempre foi meu. Aqui está a história do dia em que me tornei o maior covarde da face da Terra. Eu sou um covarde porque eu sabia — antes mesmo de dar o primeiro pa...

Carta nº 1 por Augusto Castillo

Querida Vica, Eu te amei como um incêndio devasta uma floresta. Rápido, voraz, incontrolável. Foi um cerco que não planejei, uma invasão que queimou todas as minhas defesas até não sobrar nada além de cinzas. E agora? Agora sou apenas a fuligem do que fomos, espalhada pelo vento, impregnada na pele de tudo o que toco. Porque, porra, mesmo que as chamas tenham baixado, eu ainda ardo. Eu ainda sou a porcaria da ruína que você criou. Quero que você entenda uma coisa. Leia isso e grave na mente: não foi uma encenação. Cada palavra, cada toque, cada vez que minha boca encontrou a sua... eu quis. Eu quis cada segundo desse caos. Eu quis o calor dos seus dedos entrelaçados nos meus, aquela sensação absurda de que éramos dois estranhos destinados a colidir, mesmo quando o universo inteiro gritava que éramos um erro tático. Você me deu um amor sem amarras. Sem correntes. E isso me aterrorizou mais do que qualquer queda livre. Porque eu sou feito de grades, Vica. Ergui muros tão altos que esquec...

Cartas para Augusto - 1

Eu sei. Fui eu quem traçou a linha no chão, e ainda assim, à noite, minha pele lembra exatamente onde a sua mão parava antes de cruzá-la. Não é saudade o que sinto. É fome. Uma fome antiga, insaciável, que mora no fundo do meu estômago e sobe pela espinha toda vez que alguém pronuncia seu nome perto de mim. Você nunca foi gentil comigo. E era exatamente isso que eu queria. Guardo suas mensagens não porque cortam como navalhas, mas porque doem do jeito certo. Dou play nos seus áudios tarde da noite e deixo a sua voz descer devagar, como se ainda pudesse sentir seu hálito na minha nuca, o peso da sua mão na minha cintura me puxando pra mais perto quando eu já estava perto demais. O que tivemos nunca foi doce. Foi voraz. Foi dentes e unhas e sussurros indecentes no escuro, foi você me olhando do outro lado do quarto como se estivesse decidindo se ia me destruir devagar ou de uma vez só. E eu, Deus, eu implorava pelas duas versões. Hoje vi sua foto e o ar não faltou. Faltou controle. Cada ...