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Prólogo - Isadora Arrais

Quinze anos atrás. O vestido de debutante ocupava quase toda a extensão da colcha. Eu ficava olhando para ele às vezes, aquele oceano de tule rosa-bebê que minha mãe havia mandado engomar três vezes porque o tecido “precisava cair com leveza”, como se o tecido soubesse o que era leveza e eu não. Faltavam quarenta e oito horas. Eu tinha decorado isso como se fosse uma contagem regressiva para algo que mudaria o curso da minha vida e era, só que não da forma que eu esperava. No espelho oval do meu quarto, testei pela décima vez o ângulo exato em que a tiara de strass ficava melhor. Não muito à frente, porque escorregava. Não muito atrás, porque desaparecia no cabelo. Tinha que ser no topo, levemente inclinada para a direita, e eu precisava andar sem mexer a cabeça ou tudo desmoronava. Minha mãe achava isso engraçado. Meu pai tinha uma teoria. — A questão não é segurar a tiara, Dora — ele disse na noite anterior, com aquela voz pausada que ele usava quando estava com sono mas fingia que n...

O Minimalista e o Meu Doutorado em Erros

O cheiro da noite era baunilha com pitada de imprudência. Aquelas notas doces e disfarçadamente lascivas que avisam: “garota, você já sabe no que vai dar.” Passei o perfume como quem acende vela em ritual de proteção uma borrifada nos pulsos, outra atrás da orelha, e a terceira, supersticiosa e teimosa, no peito. O céu tinha aquela cor azul escuro que só aparece quando a cidade quer seduzir, e cada passo meu até o carro parecia um “ok, talvez isso não seja uma boa ideia” vestido de salto alto e batom vermelho cereja. Isaac  com I mudo e promessas em volume máximo era o tipo de cara que lê horóscopo no café da manhã e acha que Vênus em Câncer justifica te chamar pra um jantar em casa... na primeira vez . E eu? Eu sou romântica, mas com PhD em desconfiança e especialização em "isso vai dar merda". Só que ele lembrava do nome do meu cachorro, do meu sabor de pizza favorito e dizia meu nome com aquele sotaque de filme cult inglês como se cada sílaba tivesse sido escolhida a dedo...

O Jogo Perdido (ou: A Cilada do "Coroão" Misterioso)

Leia ouvindo : Why’d You Only Call Me When You’re High – Arctic Monkeys Se o Melchiorre foi um aquecimento ruim, o Calahan foi aquele jogo de campeonato onde o seu time nem entra em campo. O nome? Sexy. Calahan soa como um lorde britânico ou um agente da CIA que vai te salvar de um sequestro em uma noite de neblina. Na vida real, ele era apenas um cara de quarenta e poucos anos que mandava "bom dia" como se fosse bater ponto no RH da minha carência. Passamos semanas naquela tensão virtual, trocando mensagens que prometiam um banquete, mas que, no fundo, mal entregavam um lanche natural. Sábado à noite. Eu estava no supermercado, no auge do meu glamour entre o corredor de amaciantes e o de papel higiênico, quando o celular vibrou. Dessa vez, não foi texto. Foi um áudio. A voz era grave, calma, o tipo de voz que te faz pensar em lençóis de fios egípcios e decisões impulsivas. “Tava pensando em beber algo... anima?” A chama acendeu. Joguei as compras no carrinho como se estivess...

O Erro (ou: Como Não Ter um Date de Sábado)

Leia ouvindo : Paparazzi - Lady Gaga Puta que pariu, eu podia estar dormindo Existem níveis de ruindade para um encontro. Existe o "meh", o "nunca mais" e, enfim, existe o Melchiorre, que acabou de inaugurar uma categoria inteiramente nova no meu catálogo pessoal de desastres: "eu podia estar dormindo" . Fica a pergunta que eu faço a mim mesma toda vez que abro um aplicativo de novo, taça de vinho na mão, coragem duvidosa no corpo: por que continuamos indo? O nome já era um prenúncio Melchiorre. Um nome que parece ter escapado de um romance histórico de banca de jornal, daqueles com capa de duque em cavalo empinado. No currículo, o homem era praticamente um catálogo de qualidades: engenheiro, professor, educador físico, escritor. No papel, um partidão. Na vida real? Aquele combo de fast-food que chega sem o hambúrguer e com a batata murcha, você paga o preço do sonho e recebe a decepção de sempre. Sábado, duas da tarde. Eu estava naquele estado pós-banho d...

Carta nº 5: A Saída de Emergência por Augusto Castillo

Ludovica, Esta é a quinta vez que tento te alcançar. A quinta vez que tento vomitar as palavras que ficaram presas na minha garganta por meses, apodrecendo entre meus dentes. Mas antes de qualquer confissão, antes que eu derrube a última barreira, eu preciso saber: como você está? Espero que o turbilhão tenha dado lugar a uma trégua. Espero que sua mente tenha encontrado paz, mesmo que seja aquela paz silenciosa e oca que fica depois de uma guerra longa demais. Agora você sabe que eu caí por você no segundo em que nossos olhos se cruzaram. Mas o amor de verdade? O amor que deixa cicatrizes profundas? Esse aconteceu no cotidiano. Na forma como você dobrava as mangas da blusa, no som do seu sopro no café quente, no jeito que você falava dos seus pais como se estivesse pintando o próprio céu. Eu te amei quando você chorou sem plateia. Te amei quando sua risada soou como uma ferida finalmente fechando. Mas agora vem a parte que eu evitei. A parte que vai nos queimar. Houve um dia em que eu...

Carta nº 4 : A anatomia dos detalhes por Augusto Castillo

  Leia ouvindo : To Build a Home Vica, Na última carta, meus dedos tremiam tanto que não sei se o que molhou o papel foi suor ou as lágrimas que jurei que não deixaria cair. Para te explicar como chegamos ao fim, eu preciso voltar ao centro do furacão. E voltar, Vica, é como abrir uma caixa de munição antiga: ainda tem cheiro de pólvora, ainda tem peso, ainda pode explodir na minha cara. Dói. Mas você sempre mereceu a verdade nua, mesmo quando eu me escondia atrás de barricadas de silêncio. Depois daquele primeiro beijo, nos tornamos inseparáveis. Foi um pacto selado no escuro, algo que minha alma reconheceu antes que minha mente pudesse processar o perigo. Nossos horários eram um campo de batalha você cantando nas noites, eu trabalhando até os ossos durante o dia  mas a gente dava um jeito. As chamadas de vídeo viraram meu único oxigênio. Ver você rindo do outro lado da tela era a única coisa que me fazia sentir que eu ainda tinha uma casa para onde voltar. Minhas viagens de ...

Carta nº 3 : A teoria do acaso por Augusto Castillo

  Leia ouvindo : Je te laisserai des mots - Patrick Watson Vica, Ainda me falta a porcaria da coragem. Minhas mãos ainda tremem no papel, tropeçando em palavras que deveriam ser simples, mas que pesam como chumbo. Só que eu não posso mais me esconder atrás das pilhas de silêncio que ergui entre nós. Eu achei que elas me protegeriam, mas a única coisa que o silêncio fez foi me enterrar vivo, longe de você. Na última carta, eu confessei que me apaixonei no primeiro dia. Mas isso? Isso foi só o prelúdio da minha ruína. A verdade é que quando você sorriu naquele bar, mexendo no cabelo como se o mundo não estivesse prestes a implodir, algo dentro de mim quebrou. Foi como se o universo, esse velho sádico e teimoso, finalmente tivesse apontado o dedo para mim e sentenciado: É ela. Aguente as consequências. O problema dos começos é que a gente nunca antecipa o tamanho da queda. E Deus, como eu caí. Tudo se resumiu àquele brinde. Um gesto pequeno, quase insignificante para qualquer um, mas ...