Cartas para Augusto - 1
Eu sei. Fui eu quem traçou a linha no chão, e ainda assim, à noite, minha pele lembra exatamente onde a sua mão parava antes de cruzá-la. Não é saudade o que sinto. É fome. Uma fome antiga, insaciável, que mora no fundo do meu estômago e sobe pela espinha toda vez que alguém pronuncia seu nome perto de mim.
Você nunca foi gentil comigo. E era exatamente isso que eu queria.
Guardo suas mensagens não porque cortam como navalhas, mas porque doem do jeito certo. Dou play nos seus áudios tarde da noite e deixo a sua voz descer devagar, como se ainda pudesse sentir seu hálito na minha nuca, o peso da sua mão na minha cintura me puxando pra mais perto quando eu já estava perto demais.
O que tivemos nunca foi doce. Foi voraz. Foi dentes e unhas e sussurros indecentes no escuro, foi você me olhando do outro lado do quarto como se estivesse decidindo se ia me destruir devagar ou de uma vez só. E eu, Deus, eu implorava pelas duas versões.
Hoje vi sua foto e o ar não faltou. Faltou controle. Cada célula do meu corpo se lembrou do que é ser tocada por alguém que nunca pediu permissão, que simplesmente tomava, e eu entregava tudo com uma urgência que nem eu sabia que tinha.
Você dizia "que se foda, isso não importa" com aquela boca que sabia exatamente o efeito que tinha sobre mim. E eu ria, porque sua indiferença era o único caos que eu queria dentro de mim.
Ainda sinto seus dedos afastando meu cabelo antes de você sussurrar algo que eu jamais repetiria em voz alta. Era perigoso. Era proibido. Era exatamente o tipo de fogo que eu escolhi tocar sabendo que ia queimar.
A ferida abriu de novo hoje. Mais funda. Mais quente.
Mas eu não me arrependo das cicatrizes, elas provam que eu estive viva o suficiente pra sentir algo assim. Eu era o incêndio. Você, a rota de fuga que eu nunca quis pegar. Eu te queria inteiro, com uma voracidade indecente, e você me queria só até o amanhecer.
A escolha foi minha. Escolhi parar de me ajoelhar diante de um desejo que só me devolvia migalhas. Escolhi que eu mereço ser desejada por completo, não só nas sombras, não só quando é conveniente.
Espero que a próxima boca que sussurrar meu nome saiba o que fazer com o incêndio que você deixou aceso.
Ludovica
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