Cartas para Augusto - 1

Augusto,

Eu sei. Fui eu quem traçou a linha no chão. Fui eu quem escolheu o exílio. Mas saber disso não impede que cada manhã pareça uma batalha que eu não tenho certeza se quero vencer. Sinto sua falta de um jeito que não é apenas emocional; é físico. É como se uma parte vital da minha estrutura tivesse sido arrancada, deixando as extremidades expostas e latejantes. Há um vazio em meu peito que tem o formato exato do seu nome.

Deveria ter apagado as fotos. Pedi que o fizessem, mas a verdade é que sou uma covarde quando se trata de você. Não deletei as conversas, nem mesmo aquelas que cortam como navalhas. Eu dou play nos seus áudios apenas para sentir a vibração da sua voz contra o meu ouvido, tentando convencer meu cérebro de que você ainda é uma certeza, e não uma lembrança que está desaparecendo entre meus dedos.

Guardo seus presentes como relíquias de uma guerra perdida. Eu sei que o manual de sobrevivência diz para seguir em frente, mas meus pés parecem fincados no solo onde te deixei. E hoje, quando vi sua foto... Deus, o ar faltou nos meus pulmões. Foi um golpe direto, sem armadura.

Ainda estou tentando mapear essa dor. O que tivemos não foi uma história inteira; foram fragmentos de uma explosão. Momentos tão intensos que me deixaram cega para o fato de que nunca fomos completos. E dói. Dói com uma precisão cirúrgica.

O dia de hoje está sendo um desastre. Eu só precisava ouvir você dizer, com aquele seu tom de quem não deve nada ao mundo: "Que se foda, isso não importa." Eu sorriria na hora. É ridículo como a sua indiferença era a única coisa capaz de ancorar o meu caos.

Será que algum dia meu coração vai parar de bater nesse ritmo errático quando alguém mencionar você? Será que vou conseguir sentar em um bar sem que o rosto de cada estranho seja apenas uma versão pálida e errada do seu?

Será que outra voz vai conseguir causar esse arrepio que sobe pela minha espinha e me faz perder o chão? Algum dia encontrarei alguém que me desafie, que me desarme com a inteligência e a provocação que você exercia como uma arma?

Eu ainda sinto o fantasma dos seus dedos afastando meu cabelo. O seu toque era um segredo sussurrado na minha pele, uma promessa que sabíamos que não poderíamos manter.

Hoje a ferida abriu de novo. Mais profunda que todas as outras vezes.

Mas eu aceito as cicatrizes. Você disse que era necessário, e você nunca errou sobre nós. Eu sempre fui o incêndio, e você sempre foi a rota de fuga. Eu te queria com uma voracidade que você nunca pretendeu retribuir. Você queria o momento; eu queria a eternidade.

Dói mais porque a escolha foi minha. Escolhi não me prender a um futuro que era apenas uma miragem. Escolhi aceitar que talvez o "nós" tenha morrido para que eu pudesse viver. Porque eu me recuso a ser a pessoa certa na hora errada. Eu mereço o tempo inteiro.

Espero que o sorriso que você conheceu  aquele leve, que não pesava encontre o caminho de volta para o meu rosto. Espero que esse furacão que você foi não tenha levado partes de mim que eu precise para me reconstruir.

Ludovica

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Nota mental: 2026 não aceita criminosas (mesmo as que não sabem o que fizeram)

O risco de imaginar você