Proibido na terça-feira - Ella Belizzato

Léo estava encostado no balcão de retirada. Camisa amassada nos punhos, aquela aura de quem domina qualquer ambiente sem esforço nenhum, e o sorriso de canto de boca que deveria ser proibido por lei.

O problema era simples: Léo era o braço direito do meu chefe. O cara do outro lado do vidro na empresa, com quem eu precisava manter postura profissional em toda reunião, e que, por algum alinhamento perverso do universo, parecia enxergar exatamente o caos que eu escondia sob o blazer.

— Trilha triste pra quem fechou o contrato da semana — ele disse, tirando um dos meus fones sem pedir licença.

— É Laufey. Não é triste, é estratégia.

— Estratégia. — Ele repetiu a palavra como se estivesse testando o gosto dela. — Você escreve relatório como máquina, toma café como quem vai pra guerra, e no fundo tá aí ouvindo música de amar fantasma?

— Não é fantasma. — Cruzei os braços. — É só que eu sei o que eu quero.

— E o que você quer?

— Alguém que não me trate como um problema de logística.

Ele riu, baixo, e aquilo desceu direto pela minha espinha de um jeito que eu não ia admitir em voz alta.

— Isso é meio vago.

— Tá bom. — Revirei os olhos. — Quero alguém que lembre meu aniversário sem o Google avisar. Que não suma quando eu mandar quinze mensagens num surto às duas da manhã. Simples assim.

— Quinze mensagens é surto? Achei que era terça-feira normal pra você.

— Cala a boca.

Ele deu um passo mais perto, cheirando a café forte e a alguma colônia cara que provavelmente custava mais que meu aluguel.

— E esse cara hipotético — ele continuou, a voz mais baixa agora — ele sabe que você quase bateu a caminhonete tentando estacionar na vaga da diretoria semana passada?

Travei.

— Você viu isso?

— Vi tudo. — Ele deu de ombros, nada humilde a respeito. — O prédio tem câmera em todo canto, e eu tenho acesso a elas. Fui eu que apaguei o vídeo do grupo de segurança antes que virasse meme.

— Você… apagou o vídeo?

— Não ia deixar todo mundo saber que a queridinha do RH quase amassou o carro do diretor financeiro. — Ele encostou o copo dele no meu, um brinde rápido e ridículo. — De nada, já pode agradecer depois.

— Isso não te dá moral pra ficar me stalkeando pelas câmeras, Léo.

— Não é stalkear. É atenção ao detalhe. — Ele começou a andar pra saída, ainda olhando pra trás. — E, pra constar: se você mandar quinze mensagens de surto uma hora dessas, eu respondo todas.

Ele saiu antes que eu conseguisse pensar numa resposta à altura, e eu fiquei ali parada, com o café esfriando na mão e a certeza incômoda de que aquilo tinha sido, no mínimo, um problema.


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