Cheiro de chuva antes de você


Leia ouvindo : From the start - Laufey

Dizem que o amor é um estalo. Um momento de clareza onde o mundo silencia e o coração finalmente encontra o ritmo certo. Mas ninguém te avisa sobre o eco. Ninguém fala sobre como é amar o fantasma de alguém que ainda não cruzou a sua porta. É carregar um peso no peito, uma armadura moldada para um estranho que ainda não sabe meu nome, mas que já reivindicou cada centímetro do meu caos.

Minha terapeuta sugeriu isso como um exercício de autoconhecimento. Eu quase ri na cara dela. Mas aqui estou, com o som de Alex Warren martelando nos fones e uma folha em branco que parece um campo de guerra antes da primeira investida.

Eu não o conheço, mas sinto a presença dele como o cheiro de ozônio antes da tempestade. Ele é a ideia que se recusa a morrer.

Eu não quero um pedestal. Quero alguém que me enxergue nas trincheiras e pense: “Puta merda, que sorte a minha.” Quero a urgência de uma terça-feira comum, beijos roubados entre as prateleiras do mercado e a entrega de quem não precisa de datas especiais para provar que está presente.

Quero um homem que decore a data do meu aniversário como se fosse uma coordenada vital, não porque um algoritmo o lembrou, mas porque ele entende que cada ano meu é uma vitória que ele quer celebrar. Alguém que ouça o que eu não digo. Que ria das minhas histórias e vibre com as pequenas conquistas mesmo que seja apenas estacionar aquela maldita caminhonete sem destruir o meio-fio.

Quero alguém que atravesse as camadas de "mãe" e "mulher" até encontrar a alma que queima por baixo. Que me deseje pelo fogo, não apenas pelo reflexo. Alguém que leia minhas palavras e não recue diante das dez mensagens consecutivas durante um surto existencial; alguém que entenda que meu caos é, na verdade, poesia.

Quero um homem corajoso o suficiente para abrir a porta do carro e, ao mesmo tempo, as defesas do meu coração. Que não fuja dos meus monstros, mas que se coloque ombro a ombro comigo para enfrentá-los. Que dance comigo na sala, com os pés descalços e o gosto de vinho nos lábios, vivendo cada segundo com uma fome voraz de "nós".

Quero fé. Quero alguém que interceda por mim quando as palavras me faltarem e eu só conseguir chorar. Um homem que me mostre a luz quando a noite parecer eterna. Que seja inteiro em suas imperfeições, sem máscaras, porque a verdade é a única coisa que brilha no escuro.

E, acima de tudo, quero um homem que olhe para a minha filha e veja um universo pelo qual vale a pena lutar. Que não tente ocupar espaços vazios, mas que construa novos territórios. Que capture nossos momentos em fotos que nunca verão a luz do Instagram, guardadas apenas no cofre do que realmente importa. Que sinta minha falta no intervalo entre o beijo de bom dia e o café da tarde.

Quero um abraço que sirva de armadura. Um beijo lento, carregado de segredos e promessas silenciosas. Quero a paz de quem escolhe ficar, a gentileza de quem ora por mim em silêncio e a visão de quem me aceita inteira sem querer mudar uma única vírgula.

Quero alguém que consiga me imaginar de branco, atravessando o corredor com o coração na boca, sabendo que cada passo dado até ali foi para chegar nele.

Se você está por aí... não demore.

Minhas defesas estão baixas. E eu ainda estou esperando.

 

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