O Erro (ou: Como Não Ter um Date de Sábado)
Puta que pariu, eu podia estar dormindo
Existem níveis de ruindade para um encontro. Existe o "meh", o "nunca mais" e, enfim, existe o Melchiorre, que acabou de inaugurar uma categoria inteiramente nova no meu catálogo pessoal de desastres: "eu podia estar dormindo".
Fica a pergunta que eu faço a mim mesma toda vez que abro um aplicativo de novo, taça de vinho na mão, coragem duvidosa no corpo: por que continuamos indo?
O nome já era um prenúncio
Melchiorre. Um nome que parece ter escapado de um romance histórico de banca de jornal, daqueles com capa de duque em cavalo empinado. No currículo, o homem era praticamente um catálogo de qualidades: engenheiro, professor, educador físico, escritor. No papel, um partidão. Na vida real? Aquele combo de fast-food que chega sem o hambúrguer e com a batata murcha, você paga o preço do sonho e recebe a decepção de sempre.
Sábado, duas da tarde. Eu estava naquele estado pós-banho de alma lavada, envolta em mais autocuidado do que dedico à minha declaração de imposto de renda. Toalha turbante, hidratante, playlist de quem-acredita-no-amor-mesmo-assim.
O celular vibra. Cinema, 21h20, drinks antes. Olhei no espelho e pensei: por que não? Estava numa seca tão homérica que até um homem que se recusa a revelar o próprio signo, o equivalente astrológico de esconder antecedentes criminais, me pareceu um mistério charmoso em vez de uma bandeira vermelha do tamanho do Cristo Redentor.
Vesti o perfume que custa um rim e promete milagres que nunca cumpre. Entrei no vestido preto tubinho, sabe aquele "eu sou uma executiva, mas também posso arruinar sua noite"? Esse.
Cheguei ao bar. E lá estava ele. Encostado num poste como se estivesse posando para a capa de um álbum que ninguém pediu. Se o dress code era "mendigo chic", ele acertou em cheio: camisa de time, bermuda de academia e um colar de miçangas que parecia produto de oficina de férias.
Eu, Chanel e salto quinze. Ele, pronto para um supino reto. Em algum lugar lá em cima, o universo estava rachando de rir de mim e, sinceramente, eu mereço um crédito nos agradecimentos daquela piada.
Sentamos no Tom Bar, nota 6,5, o tipo de lugar onde o garçom te olha com pena quando percebe que você trouxe o acompanhante errado. Ele pediu duas caipirinhas com melaço sem sequer me perguntar, e ali, gente, ali já era motivo de saída, mas eu, otimista incorrigível, respirei e continuei sentada.
Ele falou. E, minha nossa, o homem era o próprio clube de fãs de si mesmo. Mostrou os artigos que escreveu sobre futebol, elogiou a própria técnica de escrita e, quando eu mencionei meu blog — que, modéstia à parte, é excelente — recebi um aceno educado de dois segundos antes de ele voltar, claro, a falar sobre o próprio desempenho na cama.
— Só vou te contar meu signo depois que eu for canalha no próximo encontro — ele disse, inclinando-se com a confiança exclusiva de homens que nunca ouviram um "não" na vida.
E eu, internamente, redigindo já a resposta: próximo encontro só se for no fórum, meu anjo.
Do nada, sem aviso, sem faísca, ele me beijou. Foi... correto. Tecnicamente um beijo. Emocionalmente, uma pizza gelada às quatro da manhã: mata a fome, mas você sabe, no fundo da alma, que merecia melhor.
A conta chegou. O momento em que toda mulher da cidade grande já aprendeu a reconhecer o verdadeiro caráter de um homem.
— Divide por dois. E passa meu cartão primeiro — se não passar, ela paga tudo.
Juro que ouvi um efeito sonoro de desenho animado dentro da minha cabeça. O homem me fez beber caipirinha com melaço, me deu um show particular de egocentrismo e ainda teve a audácia de colocar o próprio cartão em "modo segurança" na minha frente.
Paguei a conta inteira. Sozinha. Com a dignidade de quem acabou de fazer uma doação generosa para a causa "Homens Que Precisam Urgentemente de Noção".
Caminhei até o Uber. Enquanto fechava a porta, ouvi o grito de despedida dele ecoar pela calçada:
— A gente podia ir lá em casa! Estou mudando, mas dá pra dividir a cama com as caixas!
Fechei a porta.
O motorista me olhou pelo retrovisor.
— Noite difícil? — perguntou.
— Você não tem ideia — respondi, já abrindo o bloco de notas do celular. — Mas pelo menos isso vai virar um capítulo e tanto.
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