O Jogo Perdido (ou: A Cilada do "Coroão" Misterioso)


Leia ouvindo : Why’d You Only Call Me When You’re High – Arctic Monkeys

Se o Melchiorre foi um aquecimento ruim, o Calahan foi aquele jogo de campeonato onde o seu time nem entra em campo.

O nome? Sexy. Calahan soa como um lorde britânico ou um agente da CIA que vai te salvar de um sequestro em uma noite de neblina. Na vida real, ele era apenas um cara de quarenta e poucos anos que mandava "bom dia" como se fosse bater ponto no RH da minha carência. Passamos semanas naquela tensão virtual, trocando mensagens que prometiam um banquete, mas que, no fundo, mal entregavam um lanche natural.

O Convite (O "Audível" de Última Hora)

Sábado à noite. Eu estava no supermercado, no auge do meu glamour entre o corredor de amaciantes e o de papel higiênico, quando o celular vibrou.

Dessa vez, não foi texto. Foi um áudio. A voz era grave, calma, o tipo de voz que te faz pensar em lençóis de fios egípcios e decisões impulsivas. “Tava pensando em beber algo... anima?”

A chama acendeu. Joguei as compras no carrinho como se estivesse em um episódio de Supermarket Sweep, voei para casa e fiz o "Banho Premium": aquele que gasta metade do reservatório de água da cidade e envolve esfoliantes que custam mais que a minha assinatura da Netflix.

Coloquei o Vestido. Sim, com "V" maiúsculo. Vermelho, colado, costas nuas. Se ele queria "beber algo", eu ia garantir que ele ficasse bêbado só de olhar.

O Primeiro Tempo

Ele chegou. Carro branco, perfume amadeirado de dar nó no juízo e aquele visual grisalho "estou no controle". Mas o controle dele devia estar sem pilha.

Entrei no carro exalando confiança, e o que eu recebi? Silêncio. Nenhum "você está incrível", nenhum toque no braço. Ele só... dirigiu. — Tá meio tarde... acho que não tem nada aberto — ele soltou, com o entusiasmo de quem vai a um enterro.

Oi? São 22h30 em uma cidade que só dorme quando o sol nasce. Eu conheço inferninhos que abrem agora! Sugeri o Waze, mas ele me deu aquele olhar de "deixa que o papai sabe o que faz". Spoiler: ele não sabia.

O Desastre (A Distribuidora de Tristeza)

Ele não me levou a um bar. Ele me levou a uma distribuidora. Chão de cimento, cadeiras de plástico de cores primárias e três amigos que pareciam figurantes de um filme sobre crise de meia-idade.

Ele não abriu a porta para mim. Ele não me apresentou. Ele simplesmente assobiou para o balcão. Um assobio, gente. Eu não sou um Golden Retriever, eu sou uma mulher de vestido de seda!

Ele me entregou uma cerveja morna e se sentou em uma cadeira a três quilômetros de distância de mim, mergulhando em uma conversa fascinante sobre... promoção de facas. — Essa aqui era 150 e saiu por 40, acredita? — ele dizia para o amigo do boné vermelho. Eu queria dizer que a única coisa sendo cortada ali era o meu interesse por ele.

O amigo dele ainda mandou a pérola: — Ihhh, vestido vermelho? Deve ser comunista. Cuidado, Calahan! Eles riram. Eu bebi. E a minha alma saiu do corpo para procurar um Uber por conta própria.

O Nocaute

Depois de quase duas horas sendo um enfeite de luxo em uma loja de conveniência, eu decidi que chega. Fui ao banheiro  que estava interditado, claro e quando voltei, ele estava no celular. O cara não conseguia concluir uma frase. Era um rádio com defeito num corpo de modelo da Porto Seguro.

Quando eu levantei para ir embora, ele teve a audácia de dizer: — Eu ia te levar num lugar mais tranquilo depois... pra gente se conhecer.

Eu ri. Não foi uma risada bonitinha. Foi a risada de quem já perdeu a paciência e ganhou a iluminação. — Calahan, a gente está aqui há três horas. Você me trouxe para uma distribuidora, me ignorou para falar de facas com seus amigos e nem sequer me olhou nos olhos. Você não me levou para um encontro, você me levou para um intervalo de tédio da sua vida medíocre.

Ele tentou segurar meu braço. Aquele toque de "eu mando aqui". Tirei a mão dele como quem limpa um farelo da roupa. Me aproximei  bem perto, para ele sentir o cheiro do perfume que ele não ia ganhar e sussurrei: — Agora eu entendo por que seus encontros nunca "fluem". Você é um vazio em cima de um par de pernas longas. Acorda.

Virei as costas. O salto branco estalando no asfalto como um aplauso. Entrei no Uber descalça, com os pés doendo e a alma renovada.

Calahan pode ter sido o encontro mais morno do ano, mas ele me deu o melhor desfecho de todos: a certeza de que eu sou areia demais para aquele caminhãozinho de entregas.


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