A arte do quase - Ella Belizzato

Sentei na cadeira à frente dele, tirei o casaco molhado, soltei o ar devagar. Conhecia aquele olhar. Era o peso de quem finalmente bateu de frente com a realidade.


— Você demorou. — Ele nem levantou os olhos. A voz grave, com uma sobriedade que ele não tinha meses atrás.


— Trânsito. Chuva. — Sentei, apoiando as mãos na mesa. — E você parecia precisar de um tempo a sós com esse fantasma aí.


Ele soltou uma risada seca, sem humor nenhum, e empurrou a carta na minha direção com a ponta do indicador.


— Ela me destruiu. Nem levantou a voz. Só botou tudo no papel e fechou a porta.


Peguei a carta, já amassada nos cantos, marca dos dedos dele. Li até a frase final: “Você foi o quase mais bonito da minha vida.”


Dobrei o papel devagar. Encarei ele.


— Ela não te destruiu, Lucas. Ela só parou de sangrar por um erro que era seu.


— Eu tava tentando fazer dar certo. — A mandíbula travada. — Eu não sou irresponsável. Eu tenho história, tenho ferida, você sabe disso melhor que ninguém. Eu não ia me jogar no escuro sem saber onde ia pisar.


— E por causa desse medo, ela se sentiu pouco. — Sem amaciar. — Olha o que ela escreveu: “Eu me encolhi pra caber no espaço pequeno que você me oferecia.” Isso não é poesia, Lucas. É sobrevivência. Ninguém fica na linha de frente enquanto o outro se esconde atrás da trincheira.


Ele desviou o olhar pra janela, as luzes da cidade borradas na água.


— Eu amava ela. Do meu jeito.


— Amar de longe não salva ninguém. — Inclinei o corpo pra mais perto. — Você queria o topo da montanha sem o risco de despencar. Se encantou com a intensidade dela, com a vida que ela tinha — e na hora de retribuir com a mesma coragem, travou. Ficou vendo ela cair no abismo em vez de pular junto.


Silêncio denso. Dava pra ver o exato segundo em que a defesa dele ruiu — não em choro, só naquela aceitação amarga de quem se reconhece tarde demais.


— Ela disse que eu nunca quis o suficiente. — Pegou o uísque. Não bebeu. — E o pior é que ela tem razão. Fui um covarde vestido de homem prudente.


— Ela foi embora porque percebeu que amor nenhum justifica se diminuir pra caber no mundo de alguém. — Fechei o punho de leve sobre a mesa. — Ela não parou de gostar de você. Só decidiu que merecia um homem inteiro. Não alguém que tratasse ela como risco calculado.


Ele guardou a carta no bolso interno do paletó, sobre o peito, cicatriz que ele sabia que nunca ia sumir.


— O que eu faço quando percebo que a única pessoa capaz de mudar minha vida foi embora por minha causa?


— Aprende a conviver com o estrago. — Olhei fundo nos olhos dele. — E garante que, da próxima vez que a vida cobrar coragem, você não fica só assistindo da margem.


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