Um tirano mascarado - Ella Belizzato
A névoa úmida do início da manhã cobria o jardim do asilo como um véu pesado, congelando a relva e trazendo aquele cheiro denso de terra e pinho. Aos noventa anos, o frio não era apenas uma sensação térmica; era um aviso nas articulações, uma cobrança de juros que o corpo fazia por cada década vivida sem moderação. Benjamim estava sentado no banco de madeira carcomida, as mãos trêmulas apoiadas no cabo de jacarandá da bengala. A pele de seus nós dos dedos era fina como papel de seda, coberta por manchas do tempo que pareciam um mapa de estradas já percorridas. Ao lado dele, Arthur soltou uma baforada lenta de ar denso no frio antes de ajeitar o sobretudo escuro sobre os ombros. Dois homens que já tinham visto o mundo ruir e se reconstruir meia dúzia de vezes, reduzidos agora a uma rotina de horários para remédios e caminhadas lentas pelo pátio. — Você está encarando aquela roseira seca há vinte minutos, Ben — a voz de Arthur veio como um rasgar de veludo velho, grave, pausada, carregad...