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Mostrando postagens de agosto, 2026

Um tirano mascarado - Ella Belizzato

A névoa úmida do início da manhã cobria o jardim do asilo como um véu pesado, congelando a relva e trazendo aquele cheiro denso de terra e pinho. Aos noventa anos, o frio não era apenas uma sensação térmica; era um aviso nas articulações, uma cobrança de juros que o corpo fazia por cada década vivida sem moderação. Benjamim estava sentado no banco de madeira carcomida, as mãos trêmulas apoiadas no cabo de jacarandá da bengala. A pele de seus nós dos dedos era fina como papel de seda, coberta por manchas do tempo que pareciam um mapa de estradas já percorridas. Ao lado dele, Arthur soltou uma baforada lenta de ar denso no frio antes de ajeitar o sobretudo escuro sobre os ombros. Dois homens que já tinham visto o mundo ruir e se reconstruir meia dúzia de vezes, reduzidos agora a uma rotina de horários para remédios e caminhadas lentas pelo pátio. — Você está encarando aquela roseira seca há vinte minutos, Ben — a voz de Arthur veio como um rasgar de veludo velho, grave, pausada, carregad...

O café do Gabriel - Ella Belizzato

O cheiro de café recém-passado tomava a cozinha, mas o vapor que subia da caneca não trazia o conforto de sempre. Maya encarava a mancha escura no balcão de granito como se fosse prova de um crime. — Você tá olhando pra essa bebida há uns cinco minutos sem tomar um gole — disse Elena, encostando o quadril no balcão, braços cruzados. A luz de fim de tarde cortava a sala em listras pela persiana. — Me diz que não é outra crise existencial de terça. Maya soltou o ar, raspando a unha na borda da caneca. — Eu nem gostava de café sem açúcar. Lembra? Botava duas colheres de adoçante, ou nem bebia. — E agora toma puro, fervendo, e age como se fosse a única forma aceitável de existir de manhã. — Elena deu de ombros. — E daí? Gosto muda. — Não é gosto, Elena. É do Gabriel. — A voz saiu mais baixa, sem drama, só cansada. — Comecei a tomar assim porque era o que tinha na casa dele nas manhãs que a gente não queria sair da cama. Ele foi embora, o hábito ficou. Checar a tranca três vezes antes de do...

A arte do quase - Ella Belizzato

Sentei na cadeira à frente dele, tirei o casaco molhado, soltei o ar devagar. Conhecia aquele olhar. Era o peso de quem finalmente bateu de frente com a realidade. — Você demorou. — Ele nem levantou os olhos. A voz grave, com uma sobriedade que ele não tinha meses atrás. — Trânsito. Chuva. — Sentei, apoiando as mãos na mesa. — E você parecia precisar de um tempo a sós com esse fantasma aí. Ele soltou uma risada seca, sem humor nenhum, e empurrou a carta na minha direção com a ponta do indicador. — Ela me destruiu. Nem levantou a voz. Só botou tudo no papel e fechou a porta. Peguei a carta, já amassada nos cantos, marca dos dedos dele. Li até a frase final: “Você foi o quase mais bonito da minha vida.” Dobrei o papel devagar. Encarei ele. — Ela não te destruiu, Lucas. Ela só parou de sangrar por um erro que era seu. — Eu tava tentando fazer dar certo. — A mandíbula travada. — Eu não sou irresponsável. Eu tenho história, tenho ferida, você sabe disso melhor que ninguém. E...

Do outro lado do vidro - Ella Belizzato

O indicador do sensor no meu dedo pulsava vermelho, sincronizado com o bipe metálico que ritmava a sala. A luz fria do teto parecia congelar o tempo, mas do outro lado do vidro a vida lá fora seguia na velocidade de sempre, feroz, desgovernada, sem qualquer intenção de pedir licença. Antes de o maqueiro me empurrar por este corredor, minha terça-feira era só um borrão de telas e pressa. Era a mancha de café descendo pela blusa porque tentei equilibrar a xícara enquanto respondia a um áudio no trânsito. Era o relógio do painel saltando, como num passe de mágica, das oito da manhã direto pras 11h11, engolindo três horas inteiras entre duas ligações de trabalho e aquela sensação constante de estar atrasada para um lugar que nem eu sabia direito qual era. A gente passa a vida acumulando pressa como quem junta distintivo de honra. Esquece o peso bom do abraço apertado e sem motivo de uma amiga no meio da semana, aquele cheiro de vida que nenhuma rotina consegue apagar. Esquece a risada solt...

Metade certa - Ella Belizzato

A luz fria do celular era a única coisa viva na sala às três da manhã, brigando com a bagunça de xícaras frias e relatórios que eu jurei entregar semana passada. Lá fora, a avenida nunca dormia, um zumbido baixo, quase um lembrete de que o mundo continuava girando enquanto eu desmoronava devagar no meu próprio sofá. Ele estava largado no canto, notebook no colo, fone pendurado no pescoço como se tivesse desistido de fingir que trabalhava. Nossa agenda compartilhada parecia um campo de guerra: notificações vermelhas, mensagens ignoradas no grupo da família, ideias que nunca saíram do rascunho e aquela viagem adiada três vezes porque “não era a hora certa”, como se alguma vez fosse. — A gente virou especialista em não terminar nada — resmunguei, jogando a cabeça para trás. Ele tirou o fone devagar, sem pressa nenhuma, do jeito que só ele fazia quando queria me deixar impaciente. — Especialista é forte. Eu diria… talentosos amadores. — Sério isso agora? — Sempre é sério comigo, amor. Só n...