Carta nº 1 por Augusto Castillo
Eu te amei como um incêndio devasta uma floresta. Rápido, voraz, incontrolável. Foi um cerco que não planejei, uma invasão que queimou todas as minhas defesas até não sobrar nada além de cinzas. E agora? Agora sou apenas a fuligem do que fomos, espalhada pelo vento, impregnada na pele de tudo o que toco. Porque, porra, mesmo que as chamas tenham baixado, eu ainda ardo. Eu ainda sou a porcaria da ruína que você criou.
Quero que você entenda uma coisa. Leia isso e grave na mente: não foi uma encenação. Cada palavra, cada toque, cada vez que minha boca encontrou a sua... eu quis. Eu quis cada segundo desse caos. Eu quis o calor dos seus dedos entrelaçados nos meus, aquela sensação absurda de que éramos dois estranhos destinados a colidir, mesmo quando o universo inteiro gritava que éramos um erro tático.
Você me deu um amor sem amarras. Sem correntes. E isso me aterrorizou mais do que qualquer queda livre. Porque eu sou feito de grades, Vica. Ergui muros tão altos que esqueci como se olha para o horizonte. Sempre fui o mestre da fuga, o primeiro a saltar antes que o impacto me destruísse. Mas você não tentou me prender. Você só ficou. Com as mãos abertas, me oferecendo uma liberdade que eu não sabia como carregar. E, ironicamente, tudo o que eu quis foi me acorrentar a você.
Mas como se segura algo que você sente que nunca mereceu ter?
Eu sou um labirinto de inseguranças e cicatrizes que eu nunca deixaria ninguém tocar. E você... você era a única que parecia ter o mapa para a saída. Me perdoa por te puxar para o meu centro só para te empurrar para o abismo logo em seguida. Eu queria ser seu abrigo, o porto seguro onde você descansaria a cabeça, mas a verdade é que só sei ser a tempestade. Sou o oceano que te afoga antes mesmo de você aprender a nadar.
Eu sabia que ia te machucar. Desde o primeiro segundo. Eu te observei e soube que você era a cura que eu nunca pedi, mas também a dor que eu estava disposto a causar apenas para sentir que estava vivo. Quando dormimos juntos pela primeira vez, eu vi o perigo: você poderia me consertar, mas também tinha o poder de me destruir. E Deus, isso me excitou de uma forma doentia.
Eu te devastei porque sou o buraco que nada preenche. Eu sou o fogo que se apaga no momento em que você mais precisa de calor. Eu te queimei, Vica. E o pior? Eu gostei do brilho das chamas.
Meu arrependimento não é nobre. É egoísta. Eu me arrependo porque sinto sua falta até o osso. Me arrependo porque sou um covarde que se despediu antes mesmo de ir embora. Você sentiu, não sentiu? Viu o momento em que meus beijos ficaram curtos, quando meu toque perdeu a urgência e minha voz se tornou um peso. Eu deixei você se perder porque eu não suportava a ideia de ser o homem que você precisava.
Agora, o que sobrou? Um eco? Uma cicatriz imortal na sua alma? Eu sei que não sou uma lembrança suave. Sou o nó na sua garganta e a ferida que lateja quando chove. Sou a sombra que faz você questionar se algum dia foi inteira sem mim.
Se eu pudesse ser menos quebrado, eu teria ficado. Teria segurado sua mão e enfrentado o mundo. Mas eu sou a falha, o erro de cálculo, a mentira em que nós dois acreditamos. Eu sou um homem que foge quando o amor se torna real demais para ser suportado.
Não posso voltar. Sou a dor que você precisa deixar para trás. Sou o erro que você não tem mais a obrigação de carregar.
Augusto Castillo
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