Do outro lado do vidro - Ella Belizzato
O indicador do sensor no meu dedo pulsava vermelho, sincronizado com o bipe metálico que ritmava a sala. A luz fria do teto parecia congelar o tempo, mas do outro lado do vidro a vida lá fora seguia na velocidade de sempre, feroz, desgovernada, sem qualquer intenção de pedir licença.
Antes de o maqueiro me empurrar por este corredor, minha terça-feira era só um borrão de telas e pressa. Era a mancha de café descendo pela blusa porque tentei equilibrar a xícara enquanto respondia a um áudio no trânsito. Era o relógio do painel saltando, como num passe de mágica, das oito da manhã direto pras 11h11, engolindo três horas inteiras entre duas ligações de trabalho e aquela sensação constante de estar atrasada para um lugar que nem eu sabia direito qual era.
A gente passa a vida acumulando pressa como quem junta distintivo de honra. Esquece o peso bom do abraço apertado e sem motivo de uma amiga no meio da semana, aquele cheiro de vida que nenhuma rotina consegue apagar. Esquece a risada solta ao ouvir, pela milésima vez, a mesma história que ela insiste em contar, e que a gente finge escutar como inédita só pra ver o brilho voltar nos olhos dela. Esquece a delícia libertina de ser um caos em construção: um pagode de domingo, café amargo pra acordar, cheiro de terra molhada entrando pela janela, a audácia de abrir uma cerveja ao meio-dia de quarta só porque o sol resolveu aparecer.
Corremos atrás do emprego dos sonhos, inventando apelidos carinhosos pra quem amamos, tentando chegar inteiros até a última sexta-feira do mês. Corremos fingindo saber exatamente o que estamos fazendo, quando a verdade é que ninguém sabe nada. A vida não é linha reta; é essa mistura de MPB com funk rasgado, grito no pé do ouvido, um oceano imenso e indecifrável onde cada onda carrega uma possibilidade diferente.
Aí, do nada, o mundo te veste com uma camisa de força invisível e te deita num leito estreito. Quatro dias. Quatro dias nesse “cativeiro” de paredes brancas, onde o tempo finalmente parou de correr e começou a doer.
— Relaxa o braço pra mim — a técnica disse, ajustando a agulha com uma delicadeza mecânica de quem já fez aquilo mil vezes. — Vai sentir um friozinho subindo, é o contraste.
— Isso é normal? — perguntei, só pra ouvir minha própria voz e confirmar que ainda existia.
— Totalmente. — Ela deu um tapinha rápido no meu ombro, o tipo de gentileza padronizada que os hospitais ensinam, mas que ainda assim funciona. — Qualquer coisa, aperta essa bolinha aqui. Eu vou estar do outro lado do vidro, te observando o tempo todo.
Do outro lado do vidro. Era exatamente onde a vida inteira sempre esteve, pensei, eu correndo lá dentro, e alguém observando de longe, prometendo que eu não ia ficar sozinha se algo desse errado.
A esteira começou a me deslizar devagar pro tubo branco e estreito. O ruído magnético da tomografia ecoou forte, um tranco seco que reverberou no peito.
Uma voz sintetizada e calma veio pelo alto-falante:
Respire fundo e segure.
Enchi os pulmões. Segurei o ar e, junto com ele, o peso morno da minha criança favorita dormindo encolhida no meu colo no fim de tarde. Segurei os sorrisos distraídos, os amores ferozes aos quais me entreguei sem paraquedas, a textura de tudo que vivi e de tudo que deixei pela metade.
Solte a respiração. Respire normalmente.
O ar saiu devagar, levando junto a ilusão de controle. A máquina não estava só examinando meu corpo, estava me dando uma ordem.
A vida é um caminhão desgovernado descendo a ladeira sem freio e sem calço, gritando no meu ouvido pra eu parar de tentar pilotá-la a mil por hora. Desacelerar não é perder o ritmo, é a única forma de não deixar a existência passar em branco, de finalmente sentir o gosto do que se vive em vez de só sobreviver ao impacto.
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