Metade certa - Ella Belizzato
A luz fria do celular era a única coisa viva na sala às três da manhã, brigando com a bagunça de xícaras frias e relatórios que eu jurei entregar semana passada. Lá fora, a avenida nunca dormia, um zumbido baixo, quase um lembrete de que o mundo continuava girando enquanto eu desmoronava devagar no meu próprio sofá.
Ele estava largado no canto, notebook no colo, fone pendurado no pescoço como se tivesse desistido de fingir que trabalhava. Nossa agenda compartilhada parecia um campo de guerra: notificações vermelhas, mensagens ignoradas no grupo da família, ideias que nunca saíram do rascunho e aquela viagem adiada três vezes porque “não era a hora certa”, como se alguma vez fosse.
— A gente virou especialista em não terminar nada — resmunguei, jogando a cabeça para trás.
Ele tirou o fone devagar, sem pressa nenhuma, do jeito que só ele fazia quando queria me deixar impaciente.
— Especialista é forte. Eu diria… talentosos amadores.
— Sério isso agora?
— Sempre é sério comigo, amor. Só nem sempre pareço.
Ele fechou o notebook com um estalo seco, e a sala mergulhou quase no escuro, salva só pelas luzes dos prédios vizinhos furando a cortina fina. Levantou, foi até a cozinha, voltou com dois copos d’água. Quando me entregou um, os dedos dele roçaram os meus, de propósito, eu sabia, e aquele toque besta acendeu algo que o caos do dia inteiro não tinha conseguido apagar.
— Você quer o quê, exatamente? — ele perguntou, encostando o ombro na parede, me estudando com aquele olhar que sempre parecia estar um passo à frente do meu. — Uma vida de comercial de margarina? Tudo resolvido até as seis da tarde, com trilha sonora e final feliz?
— Não — admiti, girando o copo na mão. — Mas cansa viver sempre pela metade.
— Metade é o que sobra quando você tenta fazer tudo certo o tempo inteiro. — Ele desceu para o chão, encostando as costas na minha perna, o queixo virado para o teto. — Essa perfeição que vendem por aí não aguenta nem dez minutos de vida de verdade. É feed filtrado, é mentira bonita.
— Metade é o que sobra quando você tenta fazer tudo certo o tempo inteiro. — Ele desceu para o chão, encostando as costas na minha perna, o queixo virado para o teto. — Essa perfeição que vendem por aí não aguenta nem dez minutos de vida de verdade. É feed filtrado, é mentira bonita.
Eu ri, sem humor nenhum.
— E o que a gente tem, então? Verdade feia?
Ele virou o rosto, apoiou o queixo no meu joelho, e me encarou com aquela honestidade que sempre me tirava o chão sem aviso.
— O que a gente tem é real. Confuso, corrido, cheio de ponta solta — mas real. E eu prefiro isso a qualquer coisa perfeita e morta.
Faltava dinheiro pra reforma, faltava coragem pro próximo passo, faltava tempo pra quase tudo. Mas ali, numa terça-feira qualquer, o peso do inacabado parou de parecer fracasso. Parecia só… espaço. Espaço pra continuar tentando, com ele, na bagunça.
Toda imperfeição da nossa vida somava numa perfeição própria. Não porque ficasse fácil, nunca ficava, mas porque eram exatamente as falhas, os planos furados, o improviso de todo dia que faziam a gente se agarrar um no outro e continuar.
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