O café do Gabriel - Ella Belizzato

O cheiro de café recém-passado tomava a cozinha, mas o vapor que subia da caneca não trazia o conforto de sempre. Maya encarava a mancha escura no balcão de granito como se fosse prova de um crime.

— Você tá olhando pra essa bebida há uns cinco minutos sem tomar um gole — disse Elena, encostando o quadril no balcão, braços cruzados. A luz de fim de tarde cortava a sala em listras pela persiana. — Me diz que não é outra crise existencial de terça.
Maya soltou o ar, raspando a unha na borda da caneca.

— Eu nem gostava de café sem açúcar. Lembra? Botava duas colheres de adoçante, ou nem bebia.

— E agora toma puro, fervendo, e age como se fosse a única forma aceitável de existir de manhã. — Elena deu de ombros. — E daí? Gosto muda.

— Não é gosto, Elena. É do Gabriel. — A voz saiu mais baixa, sem drama, só cansada. — Comecei a tomar assim porque era o que tinha na casa dele nas manhãs que a gente não queria sair da cama. Ele foi embora, o hábito ficou. Checar a tranca três vezes antes de dormir? Isso é do Daniel. Essa playlist de jazz que eu ponho pra cozinhar aos domingos? Cortesia da minha ex-chefe.

Elena não riu. Puxou uma cadeira, sentou de frente, cotovelos na mesa. Conhecia Maya o suficiente pra saber quando uma ferida velha decidia reabrir.

— A gente é feito de retalho, Maya. Ninguém sai ileso de quem ama.

— Não é retalho. — Maya olhou pras próprias mãos, virou as palmas pra cima, como quem procura algo perdido. — É a sensação de que não sobrou nada do original. A gente absorve os hábitos de quem passa pela vida da gente, os bons e os ruins. E o pior nem é carregar isso. É perceber que quem eu era antes já quase não existe.

Silêncio. Não incômodo, só aquele tipo de silêncio que aparece quando alguém fala uma verdade que dói.

— Eu não sei mais como era minha risada antes de aprender a segurar ela pra não assustar meu primeiro namorado — continuou, olhando pra janela, pra cidade acendendo as luzes. — Não sei qual era meu ritmo de andar antes de tentar acompanhar o passo do Gabriel. A gente se molda tanto pro espaço dos outros que, quando eles vão embora, sobra só o fantasma.

— Custa a ilusão de que você é autossuficiente. — Elena falou baixo, sem consolo barato. — Mas me responde uma coisa: a Maya de dezoito anos, que não sabia defender a própria opinião, que vivia esperando aprovação e nem sabia o que queria da vida — você queria ela de volta, intacta?

Maya travou a mandíbula.

— Não.

— Então.

— Mas dói perceber que parte de quem eu sou hoje é feita de ruína que outra pessoa deixou pra trás.

— Não é ruína. — Elena esticou o braço, apertou o pulso da amiga, sem enrolação. — É ferramenta. O Gabriel foi um erro, mas o café forte te ensinou a gostar de coisa sem máscara. O Daniel te ensinou sobre segurança, mesmo do jeito errado. Cada coisa que ficou passou pelo seu filtro antes de virar você. Você não desaprendeu a ser você, Maya. Só deixou pra trás uma versão que não ia aguentar o resto do caminho.

Maya deu um meio sorriso, cansado mas real. Levou a caneca à boca, sentiu o amargo descer.

— Então eu sou um amontoado de sobreviventes morando no mesmo corpo?

— Você é quem manda nessa bagunça. — Elena se recostou na cadeira. — As pessoas deixam marca, hábito, cicatriz. Maturidade não é tentar apagar quem passou. É escolher o que vale a pena manter depois que a porta fecha.

Maya assentiu, olhando a noite lá fora.

Deu outro gole no café. Ainda estava amargo.

— Então tá — falou, meio pra si mesma. — Vou continuar bebendo café puro e checando a tranca três vezes.

— E a playlist de jazz?

— Essa eu fico. Essa é boa.

Elena riu, se levantando pra pegar mais café pra ela mesma.


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