Manifesto de guerra pessoal
Talvez essa seja a missão mais perigosa que já aceitei: infiltrar-me na minha própria história. Escrever sobre mim não é um exercício de ego; é um reconhecimento de danos em um território que deixei de governar há muito tempo.
Alguém me perguntou do que eu gostava e o silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Eu travei. Fiquei paralisada como um soldado diante de uma arma descarregada. Percebi que eu era uma colagem de retalhos, um Frankenstein emocional costurado com as preferências dos outros, opiniões recicladas e sonhos que nunca foram meus. Eu era o eco de todo mundo, menos a minha própria voz.
Mas o cerco acabou. Eu estou queimando os mapas antigos para desenhar os meus.
Se você quer saber quem eu sou, sem as defesas e sem o disfarce da calmaria, preste atenção: eu sou o caos que aprendeu a mimetizar a paz. Sou viciada em cafeína e em livros que estraçalham minha alma com precisão militar. Amo a chuva porque ela é a única que tem permissão para ser tão melancólica quanto eu sem pedir desculpas.
Músicas são meu oxigênio, a trilha sonora de uma guerra que eu finalmente estou vencendo. Não me venha com cafunés suaves; eu prefiro o toque que desarma, aquele que encontra a falha na minha armadura e me faz desmoronar inteira. Eu sou feita de contrastes sensível e teimosa, tímida e explosiva. Um paradoxo que finalmente parou de tentar se explicar.
Eu busco o previsível por pura autodefesa. Peço o mesmo lanche há anos porque já perdi batalhas demais por me arriscar em terrenos desconhecidos. Minhas lágrimas têm orgulho demais para se renderem em público, então eu as guardo para o escuro, onde ninguém pode usá-las contra mim.
Eu amo lirios, beijos no pescoço e olhares que demoram o tempo exato de uma rendição. Sou a extrovertida que se esconde na multidão, mas que, quando confia, entrega o exército inteiro. Gosto de orquestras, de vinhos que têm cor de sangue e de amores que se constroem pedra por pedra, sem as promessas vazias de paixões relâmpago que desaparecem na primeira tempestade.
Eu estou escrevendo isso porque a minha partida é irrevogável.
Preciso me apaixonar pelas minhas próprias cicatrizes para ter força de deixar as suas para trás. Preciso entrar em mim mesma para nunca mais aceitar ser menos do que um reino inteiro. O amor que eu mereço não diminui meu território; ele o expande.
Então, mesmo que seu riso ainda assombre meus corredores, eu estou batendo em retirada. Porque desta vez, a bandeira que eu levanto, a vida que eu escolho salvar...
É a minha.
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