Eu vi o horizonte e caminhei até ele.- Ella Belizzato
Amar você nunca foi uma escolha que cheguei a considerar; foi uma sentença que rasguei antes mesmo de assinar, com as mãos firmes e o peito blindado. A verdade não é uma lâmina de gelo, é o meu próprio treino, afiado o suficiente pra cortar qualquer ilusão antes que ela chegue perto do osso: você queria meu exército inteiro, minhas batalhas e minhas cicatrizes, e eu não ofereço ruínas pra ninguém. Nem pra você.
Eu parei de desenhar mapas de um futuro que você nunca teve coragem de conquistar. Eu vi as glórias que você prometia, as cicatrizes que jurava curar comigo, o fogo que dizia acender, e descobri que era tudo fumaça sem chama. Você era o silêncio antes da avalanche, é verdade. Mas eu não fiquei parada esperando ela cair em cima de mim. Eu vi o horizonte sozinha e caminhei até ele.
O amor não devia ser pressa nem entrega cega, devia ser um muro erguido pedra sobre pedra. E quando percebi que você não ia carregar nenhuma pedra comigo, eu não derrubei minhas defesas. Eu as ergui mais alto.
Eu não salto de parapeito nenhum sem calcular a queda, isso não é medo, é sobrevivência, e eu aprendi isso com muito mais gente que você. Você testava a profundidade com a ponta da bota, medindo o risco, calculando a fuga antes de sentir o frio da água? Ótimo. Eu não preciso de alguém que hesita na beira quando eu já aprendi a nadar sozinha, e nadar bem.
Eu não construo reino nenhum pra ouvir sua voz reclamando de sal na pele. Eu não sou viciada no movimento dos seus lábios quando você luta pra ter razão, eu simplesmente paro de entregar vitórias pra quem nunca soube o que fazer com elas. Sua teimosia não é veneno que eu bebo: é um gosto ruim que eu cuspo fora.
E a parte mais poderosa dessa guerra é que eu não me aniquilo mais por ninguém. Numa sala cheia de gente, meus instintos não estão sintonizados na sua frequência, eles estão na minha. E quando estou sozinha? Eu não sou saqueadora de migalha nenhuma. Eu construo meu próprio banquete, com ou sem convidado.
Eu não me apaixonei por fantasma nenhum, porque parei de esculpir versões de você que nunca existiram. Não é traição contra mim mesma admitir isso, é a primeira lealdade real que tive comigo em muito tempo. Meu coração não bate em retirada implorando por bandeira nenhuma. Ele marcha pra frente, sozinho se precisar, porque já aprendeu que ficar esperando alguém fincar raízes é a forma mais lenta de morrer de pé.
Você pode manter os olhos no horizonte, os cavalos selados, pronto pra próxima fuga. Eu já não estou olhando pra trás pra ver se você vem.
Porque quando a poeira baixar, eu não serei sobrevivente de campo nenhum.
Eu serei quem ateou o fogo, e saiu andando antes da fumaça subir.
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