Ode à Ruína de Nós Dois - Ella Belizzato

O cheiro de pólvora se misturava a outro, mais fundo, mais doce e podre, um cheiro que não deveria existir num corpo ainda respirando. A chuva entrava pelo teto destruído, e onde a água tocava o mármore branco, o sangue fervia em espirais escuras, se movendo contra a lógica da gravidade.

Ilíria estava ajoelhada, as mãos pressionando o peito de Corvinus. Das bordas da ferida, algo pulsava sob a pele dele, um movimento que não tinha nada a ver com o coração.

— Corvinus. Olha pra mim. — A voz dela saiu mais dura do que ela queria.

— Eu tô olhando. — Ele sorriu, mas o sorriso chegou torto, um lado da boca não obedecendo direito. — Você que não tá olhando pra trás.

— Não tem nada atrás de mim.

— Eu não disse que tinha. — Os olhos dele fixaram num ponto qualquer, longe demais de onde ela estava. — Só disse que você não tá olhando.

Ilíria sentiu a nuca gelar. Resistiu ao impulso de virar o rosto.

— Fica comigo. Fala comigo, não fala essas coisas.

— Que coisas? — Ele riu, e a risada virou tosse, sangue escuro demais escorrendo pro canto da boca. — Eu só tô falando a verdade, Ilíria. Isso é novo pra gente?

— Você tá delirando. Perdeu sangue demais.

— Talvez. — Ele ergueu a mão suja de fuligem até o rosto dela. Onde os dedos tocaram, a pele ficou fria, gelada demais pra ser só a chuva. — Ou talvez você seja a única coisa nesse salão que eu ainda consigo enxergar direito.

— Para de falar assim.

— Por quê? Te assusta?

— Me assusta que você acha graça. — A voz dela quebrou no meio da frase, e ela odiou aquilo. — Você tá morrendo e ainda arruma tempo pra me provocar.

— É o único talento que me resta. — Ele fechou os olhos por um segundo, a respiração ficando mais curta. — Me conta uma coisa. Você ouviu, ou fui só eu?

— Ouvi o quê.

— Alguém disse seu nome. Antes de eu falar.

Ilíria travou. Ela tinha ouvido,jurava ter ouvido, mas não ia dar a ele, nem a si mesma, a satisfação de admitir.

— Ninguém falou nada, Corvinus. Só eu e você aqui.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Então por que você tá com a mão tremendo? — Ele segurou os dedos dela contra o próprio peito, com a força que ainda tinha. — Não é pelo sangue. Você já viu sangue demais pra tremer por isso.

Ela não respondeu. Não conseguia.

— Ilíria. — A voz dele baixou, séria de um jeito que ele quase nunca permitia. — Se alguma coisa te chamar depois que eu for embora, não responde.

— Corvinus, para.

— Promete.

— Você não vai embora.

— Promete assim mesmo.

O silêncio entre eles ficou pesado demais, do tipo que zumbia nos ouvidos. Em algum lugar atrás dela, ou talvez em lugar nenhum, talvez só dentro da própria cabeça,alguma coisa parecia estar esperando ela se virar.

— Eu prometo — ela disse, por fim, a voz quase um fio.

Ele sorriu de novo, o mesmo sorriso torto de antes, e fechou os olhos como quem finalmente descansa.

— Mentirosa.

O peito dele parou de subir. A mão escorregou do rosto dela e caiu no mármore.

Ilíria ficou ali, ajoelhada, o corpo travado, ouvidos zunindo, e por um segundo, só um segundo, teve certeza absoluta de que alguma coisa, bem atrás dela, tinha suspirado de alívio.

Ela não se virou. Nunca soube dizer se foi coragem, ou só o terror puro de descobrir que a promessa não tinha sido pra ele.

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