Carta nº 5: A Saída de Emergência por Augusto Castillo

Ludovica,

Esta é a quinta vez que tento te alcançar. A quinta vez que tento vomitar as palavras que ficaram presas na minha garganta por meses, apodrecendo entre meus dentes. Mas antes de qualquer confissão, antes que eu derrube a última barreira, eu preciso saber: como você está?

Espero que o turbilhão tenha dado lugar a uma trégua. Espero que sua mente tenha encontrado paz, mesmo que seja aquela paz silenciosa e oca que fica depois de uma guerra longa demais.

Agora você sabe que eu caí por você no segundo em que nossos olhos se cruzaram. Mas o amor de verdade? O amor que deixa cicatrizes profundas? Esse aconteceu no cotidiano. Na forma como você dobrava as mangas da blusa, no som do seu sopro no café quente, no jeito que você falava dos seus pais como se estivesse pintando o próprio céu. Eu te amei quando você chorou sem plateia. Te amei quando sua risada soou como uma ferida finalmente fechando.

Mas agora vem a parte que eu evitei. A parte que vai nos queimar.

Houve um dia em que eu decidi que não podia mais ficar. Eu guardo nossos momentos como um soldado guarda a última carta de casa em meio ao front — dobrada, gasta, mas sagrada. Só que, mesmo nos dias mais brilhantes, havia uma voz na minha cabeça sussurrando que éramos passageiros em trens com destinos opostos. Eu já estava ensaiando o adeus enquanto você ainda desfazia as malas no meu coração.

Nossas mensagens perderam o som. O silêncio se tornou nosso novo idioma. Não foi por falta de amor, Vica. Foi medo. Um terror absoluto de como seria respirar sem você. E esse medo me empurrou para o exílio. Eu me convenci de que precisava me consertar antes de tentar ser o homem que você merecia.

Então veio aquela viagem. Minha avó internada, minha família desmoronando, e eu tendo que ser o alicerce de um prédio que já estava em ruínas. A estrada parecia um corredor para o inferno. O céu estava cinza, o ar estava denso e a sua ausência era uma dor física, como uma costela quebrada a cada respiração.

Eu queria ser inteiro para você. Mas eu não sabia como ser nada além de pedaços.

Eu vi meu avô na varanda da fazenda. Ele parecia uma estátua de agonia. E quando ele me olhou, com os olhos vermelhos de quem estava prestes a perder a única coisa que importava, ele disse: “Se eu perdê-la... o que farei? Ela é minha vida inteira.”

Ali, algo em mim estalou. Eu percebi que o que me travava com você não era o medo de te perder. Era o medo de não ser capaz de te amar com aquela devoção. Com aquela alma escancarada.

Vica, você já me amava assim. Com uma fé que eu nunca tive coragem de possuir. E olhando para o amor de décadas dos meus avós, eu entendi a verdade mais amarga de todas: meu coração tinha uma ala inteira que era inabitável. Um lugar escuro e frio onde nem eu conseguia viver. Como eu poderia te convidar para morar onde eu mesmo me perdia?

Eu só podia te dar 70% do meu ser. E você? Você nasceu para os 100%. Ficar ao seu lado seria te destruir lentamente, te oferecendo migalhas enquanto você me entregava banquetes.

Meu avô deu o golpe final antes de eu partir. Ele não usou metáforas. Ele disse: “Se você não pretende se casar com ela, saia da frente do marido dela.”

Aquelas palavras foram um tiro de misericórdia. Ele estava falando de honra. De não ocupar um espaço que eu não tinha a intenção de honrar para sempre. Ficar com você sabendo que eu não daria o "sempre" era roubar de você a chance de encontrar o homem que daria.

Eu chorei naquela estrada, Vica. Chorei porque eu queria estar pronto. Queria que meu nome estivesse na sua porta. Mas continuar seria matar a luz que você carrega. Ir embora foi o ato mais cruel e, ao mesmo tempo, o mais justo que eu já cometi.

Eu arrastei o adeus. Eu sei que fui egoísta. Eu queria mais um pouco da sua órbita antes de ser lançado de volta para o vácuo. Naquela última noite, no seu show, eu planejei tudo. O vestido vermelho, o lugar lotado, os amigos. Eu queria que você se lembrasse de mim no meu melhor, enquanto eu me preparava para o meu pior.

Você estava hipnótica tocando State Lines. Mas quando nossos olhos se encontraram, eu vi: você já sabia. Havia um brilho de despedida no seu sorriso. Eu te dei o beijo mais honesto da minha vida naquele palco. Um beijo que dizia "eu te amo" e "adeus" na mesma pulsação.

Fizemos amor em cada canto daquela casa. Eu queria que as paredes guardassem o seu rastro. Eu te olhei dormir e decorei cada detalhe da sua paz, sabendo que ao amanhecer, eu seria apenas um fantasma na sua história.

Uma semana depois, eu desapareci. Não houve bilhete. Não houve explicação. Eu morri em vida para que você pudesse viver de verdade. Te bloqueei porque eu sabia que, se ouvisse sua voz, eu rastejaria de volta. E eu precisava te livrar de mim.

Foi covarde? Foi. Mas eu nunca soube lutar por ninguém.

Eu só quero guardar uma coisa: o seu sorriso do primeiro dia. Aquele sem mágoas. Aquele que era só promessa e luz. Esse é o meu relicário.

Adeus, minha "quase". Adeus, meu erro mais perfeito.

Com o amor que eu não soube carregar,

Augusto Castillo

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