Carta nº 4 : A anatomia dos detalhes por Augusto Castillo

 

Leia ouvindo : To Build a Home

Vica,

Na última carta, meus dedos tremiam tanto que não sei se o que molhou o papel foi suor ou as lágrimas que jurei que não deixaria cair. Para te explicar como chegamos ao fim, eu preciso voltar ao centro do furacão. E voltar, Vica, é como abrir uma caixa de munição antiga: ainda tem cheiro de pólvora, ainda tem peso, ainda pode explodir na minha cara.

Dói. Mas você sempre mereceu a verdade nua, mesmo quando eu me escondia atrás de barricadas de silêncio.

Depois daquele primeiro beijo, nos tornamos inseparáveis. Foi um pacto selado no escuro, algo que minha alma reconheceu antes que minha mente pudesse processar o perigo. Nossos horários eram um campo de batalha você cantando nas noites, eu trabalhando até os ossos durante o dia  mas a gente dava um jeito. As chamadas de vídeo viraram meu único oxigênio. Ver você rindo do outro lado da tela era a única coisa que me fazia sentir que eu ainda tinha uma casa para onde voltar.

Minhas viagens de trabalho? Eu comecei a sabotar cada uma delas. Recusei contratos, cancelei reuniões, abri mão de oportunidades que antes eu mataria para ter. Tudo só para não passar mais uma hora longe de você. Porque, depois de você, a distância não era mais apenas quilometragem; era uma hemorragia.

Eu me tornei um especialista em você, Vica.

Descobri que seu perfume era uma assinatura genética; ninguém mais no mundo cheira como você. Descobri que você sorri até quando o céu está desabando, e que o seu hábito de "falar demais" era a melodia que preenchia os vazios da minha existência.

Eu observei tudo. Como você aprende as coisas com uma facilidade que me irritava e me fascinava. Como você se acende às 23h, justamente quando o resto do mundo decide apagar. E como você chora pelas falhas dos outros, porque sente o dobro do que qualquer ser humano normal aguentaria.

E Deus, eu decorei até os 37 segundos exatos que você aquece o leite no micro-ondas. Nem muito quente, nem frio. O tempo perfeito. O seu tempo.

Eu sempre fui um homem de poucas palavras, mas eu te amei em cada gesto que você nunca viu. Naquelas noites em que eu não podia estar ao seu lado no palco, eu estava lá, escondido na penumbra. Sempre com aquele boné com o "L" na aba  meu código secreto, minha bandeira de rendição. Eu nunca perdi um show seu. Nenhum. Criei playlists com cada nota que saiu da sua boca, porque ouvir sua voz era a única forma de manter meu coração no ritmo certo.

E as rosas? Aquelas que chegavam ao camarim e que você achava que eram de um fã anônimo? Eram minhas, Vica. Cada pétala era um "eu te amo" que minha boca não tinha coragem de pronunciar. Era o meu jeito de te aplaudir de pé enquanto eu me escondia nas sombras.

Você se pergunta por que eu não lutei. Por que fiquei parado enquanto a gente escorregava pelos meus dedos. A verdade é que eu achei que meu silêncio era uma armadura para te proteger... inclusive de mim.

Eu lembro da cor dos seus vestidos. Rosa às quartas-feiras, como se o dia exigisse uma suavidade que só você tinha. Lembro do seu primeiro gole de Aperol, da careta que você fazia e de como você comia o petit gâteau devagar, tentando esticar o tempo, tentando fazer o "agora" durar para sempre.

Eu comprei aquele teclado não porque queria aprender música, mas porque queria ter uma desculpa para te ver tocar na minha sala. Eu adorava quando você sentava na ponta da cadeira e deixava seus dedos correrem pelas teclas enquanto eu fingia trabalhar. Você era pura graça. E eu? Eu era apenas o homem encantado assistindo a um milagre acontecer entre quatro paredes.

Eu nunca fiz nada casual com você. Eu prestava atenção em como você dobrava a manga da blusa, no tom da sua risada, no brilho dos seus olhos. Eu queria tanto que estar comigo fosse a sua coisa favorita no mundo.

Eu menti quando disse que não te puxava para perto durante o sono. Eu te trazia para o meu peito todas as noites, estendendo o braço na escuridão só para garantir que você não era uma alucinação. Eu queria colecionar cada respiração sua, porque, no fundo, eu sabia que éramos finitos.

Eu soube que te amava em um dia comum, depois da reunião mais brutal da minha carreira. Cheguei em casa sendo apenas um destroço humano, e você apareceu. Sem perguntas. Sem cobranças. Você só sentou ao meu lado no sofá, em um moletom velho, e me ofereceu o seu silêncio. Você fez chocolate quente porque achava que a felicidade era contagiosa através do vapor da xícara. E foi. Ali, eu entendi que você era o meu lar.

Dois meses depois, nós paramos de apenas nos olhar. Nós nos pertencemos.

Fizemos amor com a urgência de quem sabe que o tempo é um inimigo. E quando acabou, você me olhou com aqueles olhos marejados e perguntou: "É assim com todas? Seus olhos mentem?".

E eu cometi o meu maior pecado. Eu menti. Disse que era apenas química.

Eu disse isso enquanto meu corpo ainda vibrava com o seu. Disse isso enquanto meu peito gritava que eu nunca tinha sentido nada parecido. Ter te chamado de "meu amor" naquela cama não foi um erro, foi uma confissão que eu tentei abafar. Eu queria que aquele instante fosse o nosso "sempre".

Me desculpe por ter negado o que era óbvio. Me desculpe por ter fugido quando você me transbordou. Você estava certa, Vica. Os olhos nunca mentem. E os meus... os meus te amaram em cada segundo, em cada batida, em cada respiração.

E talvez, para minha própria destruição, eles ainda amem.

Com tudo o que restou de mim,

Augusto Castillo

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