Carta nº 2 : A anatomia de um covarde por Augusto Castillo
Ludovica Russo e Augusto Castillo
Leia ouvindo : Cherry Wine - Hozier
Ludovica,
Não sei por onde começar, então vou deixar o peso cair de uma vez: eu te devo explicações. Devo por cada silêncio que rugiu entre nós como um motor com defeito. Por cada confusão que plantei porque não tive a porcaria da coragem de colher as consequências. Eu deixei tudo subentendido enquanto você sangrava por clareza.
Talvez agora, com a distância apertando meu pescoço e a saudade montando guarda no meu peito, eu consiga cuspir a verdade. Isso não é uma estratégia de reconquista. Não é uma desculpa com verniz. É a verdade nua, possivelmente letal, e definitivamente atrasada.
Preciso que você saiba o que realmente aconteceu. Por que eu me tornei uma tumba de segredos. Por que eu fiz parecer que o problema era você... quando o erro sistêmico sempre foi meu.
Aqui está a história do dia em que me tornei o maior covarde da face da Terra.
Eu sou um covarde porque eu sabia — antes mesmo de dar o primeiro passo na sua direção — que aquilo era um incêndio tático. Um fogo de palha que aqueceria por segundos antes de reduzir meu coração a entulho. E, mesmo assim, eu avancei. Fui até você porque o desejo gritou mais alto que o meu instinto de sobrevivência. Porque o vazio que eu carregava se fechou no instante em que imaginei você dizendo meu nome.
Eu menti para mim mesmo. Fingi que eu poderia ser alguém diferente. Mas homens como eu não mudam de natureza; eles apenas escondem as garras.
Você era o verão, Vica.
E não digo isso como um poeta barato. Digo porque era físico. Você tinha a temperatura de uma tarde de janeiro, o brilho de um céu que nunca conheceu uma nuvem. Você tinha gosto de manga e sal, e cheirava a tudo o que é vivo e indomável. Você era aquele tipo de calor que não sufoca, mas desperta acordou sentidos em mim que eu tinha enterrado sob camadas de gelo e cinismo.
Eu? Eu era o idiota que chegou de casaco pesado em plena canícula, achando que passaria ileso por você.
Lembro das rodas que se formavam ao seu redor. Você era uma pira funerária e todos nós éramos mariposas querendo queimar. Você ria dos seus próprios desastres, gesticulando, dizendo que "falava demais" como se fosse uma falha de caráter.
Mas foi ali que eu perdi a guerra.
Eu me apaixonei pelo seu "falar demais". Pela forma como você ocupava espaço sem pedir permissão, como se fosse dona de cada centímetro de ar naquele lugar. Enquanto os outros recuavam por não saberem lidar com tanta intensidade, eu me aproximei porque sempre tive pavor do "pouco". Você não era apenas a alma da festa, Ludovica. Você era a porra da festa. O som mais alto, o estalo da rolha, a gargalhada que ecoava nos meus ossos.
E eu era só o convidado sortudo que teve o privilégio de dançar com o evento principal.
Mas houve um momento. No meio de todo aquele caos dourado, eu vi algo que ninguém mais viu. Por trás do riso, havia uma profundidade silenciosa. Seus olhos guardavam cicatrizes que não estavam no roteiro daquela noite. E eu precisei, com uma urgência que me assustou, te conhecer por dentro. Eu queria saber o que te fazia desmoronar no escuro.
Eu nem bebo, você sabe. Mas peguei aquele copo como um escudo. Me aproximei sentindo meu coração ensaiar um salto suicida nas costelas. Você percebeu. Sorriu aquele sorriso que desmantela qualquer plano estratégico, virou de costas e continuou a conversa. E foi ali que seu perfume me atingiu. Doce, vibrante... morango com verão.
Naquele instante, sem aviso, eu fui destruído. Eu me apaixonei por uma mulher que nem tinha olhado nos meus olhos ainda.
Fiquei até tarde, assistindo cada movimento seu como se estivesse decorando um mapa antes da batalha. Você dançou como se o mundo estivesse pegando fogo. E então, você parou. Sentou-se, exausta, com aquele vestido amarelo que parecia feito de luz solar. Você prendeu o cabelo e suspirou.
Ali eu entendi: até o sol precisa de uma pausa. Você não sabia negar luz a ninguém, era generosa até o esgotamento. E eu me apaixonei mais pela mulher que se recolhia no silêncio do que pela que brilhava na pista.
Aí você me encontrou.
Foi rápido, mas absoluto. Você ergueu o olhar, sorriu e fez um brinde invisível. Um brinde mudo entre dois estranhos que acabavam de selar um destino trágico. Eu bebi de verdade, sentindo que aquele gole era meu ingresso para o inferno que seria te amar e te perder.
Então, para responder à pergunta que você me fez quando tudo ruiu... aquela que me atravessou como uma faca quente enquanto você chorava: "Você chegou a me amar?"
Sim.
Sim, Ludovica. Eu me apaixonei com a alma, com a carne e com cada instinto distorcido que eu possuo. Me apaixonei no momento em que sua risada explodiu e eu soube que nunca mais teria paz. Me apaixonei naquele brinde idiota. Eu soube que estava ferrado. Soube que você seria meu ponto de ruptura.
E eu fui um covarde. Fugi quando o sentimento ficou pesado demais para as minhas costas quebradas. Te deixei tentando decifrar um silêncio que era apenas medo puro e simples.
Esta carta não é para você voltar. É apenas para que, quando você olhar para trás, saiba que foi real. Eu amei você. De um jeito errado, de um jeito tardio, de um jeito que me consome até hoje.
Com tudo o que eu não tive coragem de dizer,
Augusto Castillo

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