Ela falava rápido, como se o mundo estivesse atrasado e só ela acertasse o relógio. E eu… eu era feito de silêncio, de olhares tortos, de cigarro aceso com raiva por sentir demais.
Mas da primeira vez que a vi, ela ria. Ria de algo que eu não escutei, mas o som daquele riso ficou gravado na minha memória — a trilha sonora perfeita de um filme que termina em beijo na chuva. Vestia um amarelo que poderia ser o sol buscando abrigo no corpo dela. E eu pensei:
— Fudeu.
Ela falava de amor como quem fala de vinho: levemente embriagada, mas com os pés no chão. O corpo, um convite. A mente, uma armadilha. A boca dizia: “Sou desapegada.”
Mas o olhar dela queria alguém que ficasse.
Eu tentei bancar o durão. Sabe aquele tipo que responde “tanto faz” e parece inabalável? Pois é. Ela leu minha alma em três mensagens.
Virou pra mim e disse:
— Você posa de forte, mas tem um coração com alarme sensível.
E como diabos ela sabia?
Descobri que ela tinha o riso fácil, a piada pronta, a vontade de fugir antes de sentir. Mas quando ela se sentava do meu lado… ela não fugia. Ela ficava. No silêncio. No toque. No cafuné enquanto o mundo ardia.
Foi aí que entendi:
Ela fala como brisa, ama como raiz.
Finge controle. Analisava tudo. Cronometrava o tempo entre minha mensagem e minha resposta. Mas na hora do beijo, ela esquecia os ponteiros e me arrastava pra um tempo só dela.
Ela demorou pra confiar, seu silêncio que dizia “fica” mesmo quando a boca dizia “faz o que quiser”.
E eu fiquei.
Porque o toque dela valia mais que qualquer teoria.
Porque quando ela deitou a cabeça no meu peito e não disse nada, eu soube:
A mulher que fala demais… ama no silêncio.
Ela me virou do avesso.
Com cuidado. Com critério. Com beijos que pareciam mapa astral traçado na pele.
E eu, que nunca segui manual nenhum…
decorei cada linha do dela.