O Minimalista e o Meu Doutorado em Erros
O cheiro da noite era baunilha com pitada de imprudência. Aquelas notas doces e disfarçadamente lascivas que avisam: “garota, você já sabe no que vai dar.” Passei o perfume como quem acende vela em ritual de proteção uma borrifada nos pulsos, outra atrás da orelha, e a terceira, supersticiosa e teimosa, no peito. O céu tinha aquela cor azul escuro que só aparece quando a cidade quer seduzir, e cada passo meu até o carro parecia um “ok, talvez isso não seja uma boa ideia” vestido de salto alto e batom vermelho cereja.
Isaac com I mudo e promessas em volume máximo era o tipo de cara que lê horóscopo no café da manhã e acha que Vênus em Câncer justifica te chamar pra um jantar em casa... na primeira vez. E eu? Eu sou romântica, mas com PhD em desconfiança e especialização em "isso vai dar merda". Só que ele lembrava do nome do meu cachorro, do meu sabor de pizza favorito e dizia meu nome com aquele sotaque de filme cult inglês como se cada sílaba tivesse sido escolhida a dedo por um roteirista premiado. Então sim, eu fui. Como quem vai pro abate. Mas com gloss nos lábios e esperança no bolso de trás.
Não era uma noite de ritual de sedução. Também não era pijama e coque. Era aquele meio-termo perigoso: o vestido longo de costas nuas que não implora atenção, mas sussurra “me note”. Cabelo cacheado com carinho, perfume nos pontos estratégicos pulsos, orelhas, nuca. Nada em excesso. Nada óbvio. Às 20h30, ele avisou que me aguardava. Torci o nariz. Visita em casa é sempre meio disfarce de date casual com roteiro de filme alternativo e final indefinido. Mas era meu dia livre. E, em tese, eu não precisava parar na cama dele. Em tese.
Cinco minutos de carro até a casa dele. Entrei no Uber e encostei a cabeça no banco, olhos na janela. Nada de celular. Um detox de mim mesma. Tipo aquelas cenas em câmera lenta com trilha sonora melancólica.
Quando desci, entendi tudo. Ele era o tipo de cara que você não flerta em bar. Porque não parece acessível. Porque parece que namora alguém mais bonita que você, mesmo que não namore ninguém. Loiro, coque frouxo milimetricamente bagunçado, tatuagens em preto e cinza, gola rolê preta e um tênis branco tão limpo que eu quis pedir desculpas por ter pisado na rua.
Ele veio até mim, pagou o Uber sem conferir, e me puxou pra um abraço. Frio, firme, bom. Do tipo que você pensa: “se for só isso, já valeu.” Ele cheirava a madeira e baunilha preguiçosa. Tipo pecado de luxo em frasco masculino.
— Que lindo teu condomínio... acredita que é bem pertinho da minha casa? — arrisquei, jogando uma isca leve.
Nada.
Ele andou ao meu lado como se eu fosse o próprio som do silêncio.
— Você tá cheiroso — tentei, meio rindo, meio pedindo um sinal de vida.
Nada de novo.
Elevador. Silêncio. E então:
— Você fala bastante, né?
Não era uma pergunta. Era um aviso. Quase um alerta. Um “seja menos você” disfarçado de observação neutra.
O prédio era nobre, o apartamento, claro, era uma cobertura. E tudo ali — desde o tapete na entrada até o gelo na bebida dele — dizia que aquele encontro estava meticulosamente calculado. Exceto ele. Que era tudo, menos confortável.
O elevador subia devagar, cúmplice do desconforto. Meus ombros erguidos, meu vestido farfalhando baixinho, e o silêncio — esse maldito silêncio que preenche as lacunas que as palavras deveriam ocupar.
— Você também tá bem perfumada hoje — ele disse, sem olhar, como quem comenta o clima.
— Obrigada — respondi. E foi só isso.
Ali, no meio do elevador, entre o silêncio dele e a minha vontade de desaparecer, eu soube: se a vida tivesse rewind, eu teria parado no abraço. Porque aquilo — aquele primeiro e único gesto de humanidade — tinha sido o auge da noite.
Entramos no apartamento e, por um segundo, eu perdi o fôlego. As janelas enormes deixavam entrar a cidade inteira — uma vista panorâmica dos prédios ao redor, arranha-céus emoldurados por cortinas translúcidas. Aquela era a minha visão favorita do mundo: concreto, luzes e possibilidades empilhadas. Por um instante, cogitei se ele lembrava que eu já tinha dito isso, sobre minha paixão por prédios, por janelas altas, por essa estética urbana de quem sempre sonhou grande. Mas logo engoli a ideia. Eu falava demais, né?
— Sente-se. Comprei um vinho pra gente... vou montar uma tábua de frios — disse ele, já indo em direção à cozinha, que se abria como uma extensão da sala, toda clean, silenciosa, planejada.
Não respondi. Apenas me acomodei no sofá e fiquei observando.
Ele se movia ali dentro com a calma de quem conhece cada centímetro do próprio território. Era como ver um filme mudo, em que os gestos dizem mais que qualquer roteiro. Enquanto ele separava queijos e embutidos, meus olhos percorriam o cenário: o ambiente era perfumado, discreto, masculino sem clichê. Os tons neutros e as paredes preenchidas por quadros minimalistas davam um ar de revista, mas havia calor ali — cheiro dele misturado com madeira e lavanda, uma combinação que me fazia querer afundar mais no estofado.
Fotos em porta-retratos contavam histórias silenciosas. Um menino pequeno sorria em algumas delas o filho dele, como eu saberia depois. Em um canto, um computador gamer montado com capricho, luzes apagadas, mas presente como um altar particular. Um pedaço de mundo só dele.
Minutos depois, ele retornou com uma mesinha improvisada. Montou tudo com precisão quase metódica, sem pressa, sem palavras. Serviu o vinho em taças altas, escuras. Sentou ao meu lado, mas não perto. Havia um espaço entre nós. Um espaço que dizia: ainda não. Um espaço seguro demais pra quem já trocou confidências pela madrugada.
— Obrigada — murmurei, aceitando a taça.
E brindamos. Sem brindar. Só o som do vidro contra o vidro, tímido, como se até o vinho estivesse tentando nos entender.
Ele girou o vinho na taça como quem finge distração, mas tava me analisando — e nem tentava disfarçar.
— Você é mais... diferente do que eu imaginei — soltou, como se tivesse ensaiado essa frase mil vezes no espelho e só agora criou coragem de usar.
Ergui uma sobrancelha, encostando no encosto do sofá, pernas cruzadas, taça equilibrada no joelho como uma ameaça sutil.
— Diferente bom ou diferente "deveria ter ficado nas mensagens"? — soltei, com aquele meio sorriso que diz “tô brincando, mas quero mesmo saber”.
Ele me encarou com um meio-riso, daqueles que você nunca sabe se é charme ou distração.
— Bom. Mas... intenso.
— Ah, desculpa. Eu esqueci de vir com manual de instruções — devolvi, levando a taça à boca. Gole longo, olhar firme.
Ele riu, e pela primeira vez pareceu relaxar. Deixou o corpo afundar mais no sofá, os ombros desceram como se ele tivesse se permitido estar ali de verdade. Encostou o braço na lateral, mais perto de mim, mas ainda mantendo aquele espaço entre nós. Um espaço de “ainda não”.
— Não é todo dia que alguém fala tudo o que pensa. Você é tipo... crua.
— Crua? — repeti, com um risinho debochado. — Isso é um elogio ou você tá me chamando de sashimi?
— Tô dizendo que você não finge. Isso é raro — ele disse, sério dessa vez.
Silêncio. Mas não era desconfortável. Era aquele tipo de pausa que pulsa. Que enche o ar de possibilidades.
— E você? Sempre tão calado ao vivo ou sou eu que te deixo nervoso? — provoquei, inclinando um pouco o corpo em direção a ele.
Ele segurou a taça com firmeza, como se o vinho fosse a única coisa o mantendo no eixo.
— Acho que você me tira do eixo — murmurou, quase sem voz.
Aquele olhar me atravessou. O tipo de olhar que diz “eu vou te beijar”, mas ainda não sabe se pode.
Eu bebi mais um gole. Lento. Lascivo. Como quem saboreia a própria paciência.
— Então me conta mais sobre você — ele pediu, girando o vinho caro como se estivesse esperando uma palestra. — Já disse muito sobre mim e, aliás, eu falo demais, né? — joguei o sarcasmo no ar, esperando que ele captasse a indireta do elevador. — Acho que é a sua vez.
Cruzei as pernas, o vestido vermelho deslizando pela seda do sofá dele, e me preparei para o show. Eu esperava profundidade. Esperava que ele falasse sobre o filho, sobre as tatuagens, sobre por que diabos ele usava gola rolê dentro de casa em pleno clima tropical.
Isaac tomou um gole. Olhou para a vista de um milhão de dólares. E soltou: — Ah, eu sou um cara simples. Gosto de silêncio. De ordem. Minha vida é basicamente trabalho e meu filho. Não tem muito mistério.
E foi isso. Fim da transmissão. Sem sinal de Wi-Fi emocional.
Tentei de novo. Puxei assunto sobre os quadros, sobre a música baixa que tocava ao fundo, sobre qualquer coisa que não fosse o barulho do gelo batendo na taça. Cada frase minha era um parágrafo; cada resposta dele era um monossílabo. Eu estava jogando tênis sozinha contra uma parede de concreto polido.
— Você está muito tensa, Ella — ele murmurou, finalmente quebrando o espaço entre nós.
Ele se aproximou. O cheiro de baunilha e madeira era um crime contra a humanidade de tão bom. Ele colocou a mão no meu pescoço, o polegar roçando a minha mandíbula. Por um segundo, meu PhD em desconfiança entrou em licença-maternidade. O beijo foi técnico. Perfeito. Sem erros. E totalmente sem alma. Foi como beijar um filtro do Instagram: bonito de ver, mas você não sente a textura.
Quando nos afastamos, ele deu aquele meio-sorriso de catálogo. — Melhor que o vinho? — perguntou, com uma arrogância mansa.
Olhei para ele. Olhei para a sala fria. Olhei para o coque milimetricamente bagunçado. — Sinceramente? O vinho tem mais camadas — respondi, levantando-me e ajeitando o vestido.
Ele franziu o cenho, confuso. Minimalistas não lidam bem com críticas; eles acham que o vazio é "conceito". — Onde você vai? — Vou embora, Isaac. Sua cobertura é linda, seu vinho é excelente e você é um colírio para os olhos. Mas eu sou intensa demais para ser um item de decoração na sua sala clean.
Caminhei até a porta enquanto ele ainda processava que o "silêncio" dele não era misterioso, era só tédio disfarçado de bom gosto. — Eu te levo — ele disse, levantando-se. — Não precisa. Eu falo demais, lembra? O motorista do Uber vai adorar ouvir minhas teorias sobre como homens de gola rolê são o novo sinal de perigo.
Saí da cobertura sem olhar para trás. Enquanto o elevador descia, senti um peso saindo dos meus ombros. Melchiorre era o tosco. Calahan era o amador. E Isaac? Isaac era o nada bonito.
Três dates. Três desastres. Três histórias para o blog que iam fazer as minhas leitoras chorarem de rir. Ajeitei o batom vermelho cereja no espelho do elevador. Eu podia estar voltando para casa sozinha, mas pelo menos a trilha sonora da minha vida não era um silêncio constrangedor.
Como diria a rainha das crônicas de Nova York: “Às vezes, a melhor parte de um encontro não é o que acontece na cobertura, mas o momento em que você aperta o botão do térreo e percebe que é livre demais para caber no mundo de outra pessoa.”
Próximo.
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